Foto: Nadja Kouchi / TV Cultura
Foto: Nadja Kouchi / TV Cultura

Novos detalhes sobre o colapso do Banco Master ajudam a iluminar decisões tomadas nos bastidores da regulação financeira nos últimos anos. De acordo com o “Estadão“, Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central do Brasil, tinha conhecimento dos graves problemas de liquidez enfrentados pelo banco, mas optou por evitar uma intervenção direta durante seu último ano à frente da autoridade monetária.

A estratégia adotada foi priorizar uma solução de mercado, baseada na expectativa de que o Master conseguiria separar ativos “bons” e “ruins”, a clássica lógica de good bank e bad bank, reduzindo o impacto sistêmico e a eventual conta para o Fundo Garantidor de Créditos. A liquidação acabou sendo executada apenas em novembro de 2025, já sob a presidência de Gabriel Galípolo.

De acordo com a reportagem, Campos Neto teria atuado ao menos duas vezes em 2024 para evitar uma intervenção ou liquidação do banco, em março e novamente em novembro, mesmo com o agravamento do quadro financeiro da instituição controlada por Daniel Vorcaro.

Fiscalização apertou, mas decisão não veio

Documentos enviados pelo Banco Central ao Tribunal de Contas da União indicam que, já no primeiro semestre de 2024, a autarquia passou a realizar acompanhamento contínuo da gestão de risco de liquidez do Master. O banco apresentava um cronograma relevante de vencimentos de passivos, ao mesmo tempo em que mantinha baixo estoque de ativos líquidos.

Naquele momento, o BC exigiu providências para recomposição da liquidez e a apresentação de um plano de contingência. No segundo semestre, porém, o cenário se deteriorou. O plano de negócios do Master previa captar R$ 15 bilhões em recursos institucionais de longo prazo, mas apenas R$ 2 bilhões foram efetivamente levantados.

Mesmo assim, segundo o BC, a instituição seguiu contratando operações estruturadas de longo prazo, com baixa liquidez e geração limitada de caixa. O documento menciona ainda irregularidades relevantes, como insuficiência de capital, informações incorretas prestadas à autarquia, inexistência de ativos líquidos que lastreassem fundos de liquidez e falhas no gerenciamento de risco de crédito.

Brechas regulatórias e sinais do mercado

O caso também reacende o debate sobre escolhas regulatórias feitas ao longo da gestão Campos Neto. Em outubro de 2023, o Banco Central alterou regras de contabilização de precatórios como ativos de risco. Embora a norma tenha endurecido critérios, uma brecha permitiu que o Master, grande detentor desses ativos, evitasse ajustes mais profundos em seu balanço naquele momento.

No mercado, os sinais de alerta já existiam. Em agosto de 2023, a Warren Investimentos divulgou relatório a clientes desaconselhando a compra de CDBs do banco. Ainda assim, o Master continuou crescendo de forma acelerada, apoiado em captações via plataformas de investimento.

O quadro se agravou a partir de novembro de 2024, quando o banco passou a ter dificuldades para rolar dívidas e deixou de recolher integralmente depósitos compulsórios junto ao BC, um dos indicadores mais sensíveis de estresse financeiro. Diante disso, a instituição recebeu um “cartão amarelo” regulatório, com base em norma do Conselho Monetário Nacional que permite medidas prudenciais preventivas.

Quando a agenda encontra o risco

Entre 2019 e 2024, o Master saiu de R$ 3,7 bilhões em ativos para R$ 82 bilhões, crescendo em ritmo muito superior à média do sistema. Relatórios da Moody’s apontam expansão de até 100% ao ano no último período. A trajetória ocorreu em um ambiente regulatório que buscava estimular a concorrência e o crescimento de bancos pequenos, médios e fintechs, uma das bandeiras centrais da gestão Campos Neto.

O caso Master expõe o dilema dessa agenda: até que ponto flexibilizar e confiar no mercado sem perder o controle do risco sistêmico. A aposta em uma solução privada acabou adiando a intervenção, mas também permitiu que os problemas se aprofundassem, culminando em uma liquidação mais custosa e em investigações criminais.

Gabriel Rios

Editor-chefe

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.