Affirm cresce 36% com aposta em financiamento sem juros

A Affirm, uma das principais plataformas de “compre agora, pague depois” dos Estados Unidos, registrou crescimento de 36% no volume bruto de mercadorias (GMV) no segundo trimestre fiscal, atingindo US$ 13,8 bilhões. A receita avançou 30%, chegando a US$ 1,1 bilhão, enquanto a base de consumidores ativos expandiu 23%, alcançando 25,8 milhões de usuários. Os números refletem uma mudança no comportamento de compra, com financiamento de curto prazo se tornando rotina no comércio eletrônico americano.

Financiamento zero juros vira padrão no checkout

O crescimento foi puxado principalmente pelas opções sem juros. Segundo o portal PYMNTS, o GMV vinculado a produtos com 0% de APR cresceu 60% no período, superando a expansão geral da plataforma. Mais de 60% dos novos clientes da Affirm escolheram uma opção sem juros na primeira transação, e cerca de 39% de todas as compras do trimestre foram realizadas sem cobrança de juros.

Aproximadamente 60 mil lojistas financiaram ofertas de 0% APR durante o período — quase quatro vezes mais que no ano anterior. O CEO Max Levchin destacou que a simplicidade da proposta é o diferencial competitivo. “Quando a Affirm diz ‘sem juros’, realmente significa sem juros, sem asterisco”, afirmou em teleconferência com analistas.

Como a Affirm lucra sem cobrar juros do consumidor

Quando o parcelamento é oferecido sem juros, o lojista paga uma taxa substancialmente mais alta à Affirm — que pode variar entre 2% e 8% do valor da transação, dependendo do setor e volume. Essa taxa compensa a fintech por processar o pagamento, assumir o risco de crédito e pagar o lojista em até dois dias.

Os lojistas aceitam pagar essas taxas porque o BNPL funciona como ferramenta de conversão de vendas. A própria Affirm afirma que parceiros veem aumento de 85% no volume anual de pedidos e 20% em compras repetidas. O CFO Rob O’Hare admitiu que a empresa ganha menos por transação nos empréstimos sem juros, mas compensa pelo maior volume de operações e alcance mais amplo de consumidores.

A Affirm opera um modelo híbrido: cerca de 43% dos empréstimos são oferecidos a 0% APR, enquanto os demais têm taxas de juros entre 10% e 36%, com média de 18%. A empresa também gera receita através de taxas de interchange do Affirm Card e pela venda de carteiras de empréstimos para investidores terceiros.

Affirm Card transforma BNPL em ferramenta cotidiana

O Affirm Card, cartão que permite parcelamento em qualquer loja, foi o destaque do trimestre. O volume processado disparou 159%, chegando a US$ 2,2 bilhões, com a base de usuários ativos dobrando para 3,7 milhões. O GMV do cartão vinculado a 0% APR aumentou 190% e já representa cerca de 20% do volume total do produto.

Levchin descreveu o cartão como saindo da fase de adoção inicial. “Não é mais um produto novidade para nossos usuários mais fiéis. Está nos ajudando a criar mais usuários fiéis”, disse. Ele também contestou a percepção de que consumidores habituados a financiamento promocional resistem a produtos com juros posteriormente. “É um mito da indústria”, afirmou.

Expansão regulatória e novas verticais

Durante o trimestre, a Affirm integrou seu sistema de pagamentos à plataforma QuickBooks e iniciou testes limitados para financiamento de aluguel. A empresa também solicitou licença de banco industrial, movimento que Levchin descreveu como busca por maior clareza regulatória, embora tenha alertado que a aprovação pode levar anos.

A performance de crédito permaneceu estável apesar do crescimento. A inadimplência acima de 30 dias em empréstimos mensais ficou em 2,7%, enquanto as perdas em produtos Pay-in-4 permaneceram abaixo de 1% do GMV. “O consumidor que vemos hoje está bastante saudável”, afirmou Levchin.

Para o ano fiscal atual, a Affirm projeta GMV entre US$ 48,3 bilhões e US$ 48,85 bilhões, com receita estimada entre US$ 4,09 bilhões e US$ 4,15 bilhões. As ações caíram 6% no after-market após o anúncio, refletindo desaceleração nas taxas de crescimento projetadas.

Gabriel Pereira

Fundador da Let's Money

Fundador da Let's Money que da voz a quem constrói o mercado financeiro no Brasil e no mundo.

Fundador da Let's Money que da voz a quem constrói o mercado financeiro no Brasil e no mundo.