Foto: Freepik
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Integrar instituições financeiras concorrentes em uma mesma infraestrutura nunca foi um desafio trivial. Quando falamos de um consórcio envolvendo múltiplos bancos, a complexidade extrapola a tecnologia e passa a envolver governança, confiança e alinhamento regulatório. A tokenização de ativos em rede amplia ainda mais esse desafio, pois exige coordenação entre sistemas, processos e culturas organizacionais distintas.

Este artigo entra nos bastidores de uma experiência real de consórcio multibanco para mostrar que, na prática, o maior obstáculo não é o blockchain, mas a forma como as instituições decidem colaborar em um ambiente compartilhado.

Consórcios financeiros: tecnologia não é o ponto de partida

Há uma percepção comum de que consórcios falham por limitações técnicas. A experiência prática mostra o oposto. Projetos multibanco tendem a fracassar quando a governança vem depois da tecnologia.

Antes de qualquer linha de código, é necessário responder perguntas fundamentais:

  • Quem define as regras da rede?
  • Como as decisões são tomadas?
  • Como os conflitos entre participantes são resolvidos?
  • Como garantir neutralidade entre concorrentes?

Sem respostas claras, a tecnologia apenas amplifica disputas existentes. Em consórcios bem-sucedidos, o blockchain surge como instrumento de execução de regras previamente acordadas, não como solução mágica para desalinhamentos institucionais.

Governança como infraestrutura invisível

Em um consórcio de tokenização, a governança é tão importante quanto a infraestrutura tecnológica. Ela define papéis, responsabilidades e limites de atuação de cada participante. Bancos com diferentes portes, níveis de maturidade digital e estratégias comerciais precisam operar sob um conjunto comum de regras, aceitas por todos.

A principal lição prática é clara: governança precisa ser objetiva, auditável e neutra.

Modelos baseados em comitês técnicos, regras codificadas e processos transparentes reduzem a necessidade de arbitragem constante. Quando bem desenhada, a governança deixa de ser um fator de atrito e passa a ser um acelerador de confiança.

Blockchain como camada neutra de coordenação

É nesse ponto que o blockchain mostra seu real valor em consórcios. Não como tecnologia disruptiva, mas como camada neutra de coordenação entre instituições.

Ao registrar regras, eventos e transações de forma imutável e compartilhada, a rede blockchain reduz assimetrias de informação. Nenhum participante controla o sistema sozinho, e todos têm visibilidade proporcional ao seu papel.

Essa neutralidade é essencial em ambientes competitivos. Ela permite que bancos colaborem em infraestrutura sem abrir mão de sua autonomia comercial, criando um equilíbrio delicado entre cooperação operacional e competição de mercado.

Compliance compartilhado: menos fricção, mais confiança

Em consórcios tradicionais, compliance costuma ser duplicado: cada instituição mantém seus próprios controles, reconciliações e auditorias. Em uma rede de tokenização bem estruturada, parte desse esforço é compartilhado por design.

Trilhas de auditoria nativas, regras de validação comuns e registros sincronizados reduzem divergências e simplificam supervisão. Isso não elimina responsabilidades individuais, mas cria um padrão mínimo comum de conformidade, que beneficia todo o ecossistema.

O resultado prático é menos fricção operacional, menos retrabalho e mais previsibilidade regulatória — fatores críticos para projetos em escala.

Interoperabilidade como pré-requisito

Outro aprendizado central é que a interoperabilidade não pode ser tratada como fase futura. Em consórcios multibanco, ela é pré-requisito desde o início.

Instituições utilizam sistemas legados distintos, padrões próprios e arquiteturas heterogêneas. Ignorar essa realidade leva a integrações frágeis e soluções paliativas. Projetos bem-sucedidos partem do princípio de que a rede precisa respeitar o legado existente, conectando sistemas sem impor rupturas desnecessárias.

A tokenização, nesse contexto, atua como camada de abstração: os bancos continuam operando seus sistemas internos, enquanto a rede comum garante interoperabilidade, rastreabilidade e sincronização de eventos.

Lições práticas de um consórcio em funcionamento

A experiência de integrar mais de uma dezena de bancos em um consórcio de tokenização deixa lições claras para o mercado:

  1. Governança vem antes da tecnologia
  2. Neutralidade é condição para cooperação entre concorrentes
  3. Compliance compartilhado reduz custos ocultos
  4. Interoperabilidade não é opcional
  5. Confiança se constrói com regras claras e execução consistente

Esses fatores explicam por que alguns consórcios avançam enquanto outros ficam presos a pilotos intermináveis.

Para finalizar, a integração de múltiplos bancos em uma única rede de tokenização mostra que a verdadeira inovação do sistema financeiro não está apenas em novas tecnologias, mas na capacidade de operar em rede com confiança, governança e compliance.

Consórcios bem-sucedidos não eliminam a competição — eles a reorganizam. Criam infraestrutura comum onde faz sentido cooperar, liberando as instituições para competir onde realmente importa: produtos, serviços e experiência do cliente.

O futuro do sistema financeiro será cada vez mais colaborativo. E quem aprender a operar em rede primeiro estará melhor posicionado para liderar essa próxima fase.

Foto: Abner Garcia / Let's Money
André Carneiro

CEO da BBChain

André Carneiro é especialista em Blockchain e Arquitetura de Negócios, com mais de 20 anos de experiência em tecnologia no setor financeiro, atendendo a diversos segmentos de mercado e produtos. Atualmente é CEO e cofundador da BBChain, empresa referência em Blockchain corporativo e DLT no Brasil.

André Carneiro é especialista em Blockchain e Arquitetura de Negócios, com mais de 20 anos de experiência em tecnologia no setor financeiro, atendendo a diversos segmentos de mercado e produtos. Atualmente é CEO e cofundador da BBChain, empresa referência em Blockchain corporativo e DLT no Brasil.