Tony Volpon, estrategista-chefe da WHG e ex-diretor do Banco Central | Foto: Divulgação
Tony Volpon, estrategista-chefe da WHG e ex-diretor do Banco Central | Foto: Divulgação

O mercado brasileiro de stablecoins ganha um novo capítulo com a entrada direta da dívida pública no centro da estrutura. O ex-diretor do BC (Banco Central do Brasil), Tony Volpon, anunciou o lançamento da BRD, uma stablecoin lastreada em títulos públicos do Tesouro Nacional.

Com a iniciativa, o Brasil passa a contar com seis stablecoins lastreadas em reais, juntando-se a BRZ, BRLA, cREAL, BBRL e BRL1. O movimento ocorre em paralelo a discussões mais amplas sobre tokenização de ativos financeiros, em um momento em que a própria B3 já sinalizou que estuda lançar sua própria stablecoin até o fim do semestre.

Segundo Volpon, parte das reservas que garantem a paridade da BRD será composta por títulos da dívida pública, criando um instrumento híbrido entre o mercado financeiro tradicional e a infraestrutura blockchain. A proposta é usar a tecnologia para tornar mais acessível, líquido e contínuo o acesso às taxas brasileiras, historicamente elevadas.

Stablecoin como porta de entrada para os juros do Brasil

A tese por trás da BRD parte de um problema antigo: o interesse global nos juros brasileiros sempre existiu, mas o acesso a esse mercado costuma ser burocrático, caro e pouco intuitivo para investidores estrangeiros. Ao tokenizar a exposição à dívida pública em formato de stablecoin, a BRD busca eliminar parte dessas fricções.

“Com o BRD, o processo se torna direto, disponível 24 horas por dia, sete dias por semana, em redes blockchain de alta liquidez”, afirmou Volpon, segundo a “Exame“. A ideia é permitir que investidores globais tenham exposição às taxas brasileiras sem precisar navegar por estruturas tradicionais de custódia, câmbio e liquidação.

Na prática, a stablecoin funciona como uma camada digital de distribuição da dívida pública, algo que pode ganhar relevância em um cenário de juros próximos de 15% ao ano e necessidade constante de rolagem do estoque de títulos do governo.

Impacto potencial sobre a dívida e o mercado financeiro

Segundo Volpon, a iniciativa pode contribuir para ampliar a base de investidores da dívida brasileira, aumentando a demanda por títulos públicos e, no limite, ajudando a reduzir o custo de financiamento do governo ao longo do tempo.

Além disso, o projeto dialoga com uma agenda mais ampla de digitalização do mercado financeiro, ao aproximar instrumentos tradicionais, como títulos do Tesouro, de infraestruturas nativas de blockchain. Para o executivo, esse movimento tende a acelerar novas formas de negociação, financiamento e participação institucional.

“Ela funciona como uma porta de acesso a serviços digitais que nunca estiveram plenamente integrados às tecnologias de blockchain no Brasil”, afirmou.

Tokenização além das stablecoins

A BRD não é a única frente de atuação de Volpon no mercado de ativos digitais. Por meio da CF Inovação, o ex-diretor do BC também lidera projetos de tokenização de ativos imobiliários, incluindo um marketplace integrado para listagem e negociação desses ativos.

A empresa também desenvolveu uma solução baseada em blockchain para registro de contratos imobiliários, adotada pelo Conselho Federal de Corretores de Imóveis (Cofeci), com o objetivo de aumentar transparência, reduzir fraudes e automatizar processos no setor.

No debate público, Volpon tem defendido que iniciativas como stablecoins, tokenização e até o bitcoin não competem diretamente com projetos como o Drex, mas podem atuar de forma complementar dentro de um sistema financeiro mais digital e interoperável.

O lançamento da BRD reforça uma tendência clara: a fronteira entre dívida pública, fintechs e criptoinfraestrutura começa a desaparecer, abrindo espaço para novos modelos de financiamento e distribuição do capital brasileiro no cenário global.

Gabriel Rios

Editor-chefe

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.