
O crédito sempre foi apontado como um dos grandes entraves ao crescimento das pequenas e médias empresas na América Latina. Mas, cada vez mais, o problema deixa de ser apenas falta de capital e passa a ser infraestrutura. É nesse ponto que a fintech Anzi Finance tenta se posicionar.
A fintech anunciou a conclusão da primeira fase de um plano de financiamento de US$ 25 milhões, voltado ao fortalecimento de sua infraestrutura de mitigação de risco de crédito na região. O objetivo é ambicioso: ao longo de cinco anos, viabilizar a mobilização de até US$ 1,6 bilhão em crédito produtivo, conectando instituições financeiras a mecanismos mais eficientes de garantia.
A tese parte de um diagnóstico conhecido, mas ainda pouco resolvido. As PMEs representam mais de 99% das empresas da América Latina e concentram cerca de 60% do emprego formal. Ainda assim, enfrentam um déficit de financiamento estimado em US$ 1,2 trilhão, segundo dados de organismos multilaterais. Parte relevante desse buraco não está no apetite ao risco, mas na dificuldade operacional de estruturar garantias, monitorar carteiras e distribuir perdas de forma eficiente.
Infraestrutura como gargalo do crédito
A Anzi atua justamente nessa camada invisível do sistema financeiro. Sua plataforma estrutura e opera diferentes modelos de garantia de crédito, desde mecanismos de primeira perda até esquemas de autoequilíbrio e uso de ativos reais como contragarantia. Tudo isso é gerenciado por uma infraestrutura tecnológica que combina automação, rastreabilidade e componentes baseados em blockchain.
Na prática, a proposta é reduzir fricções operacionais para bancos, cooperativas e fintechs de crédito, encurtando prazos de execução e melhorando a gestão de risco. Ao padronizar processos e permitir monitoramento em tempo real, a empresa busca tornar viável a concessão de crédito em mercados onde a heterogeneidade regulatória e operacional ainda é alta.
Desde o lançamento, em fevereiro de 2025, a Anzi já garantiu mais de 30 mil empréstimos na Colômbia e trabalha com nove intermediários financeiros no país. Um projeto piloto também está em andamento no México, sinalizando a estratégia regional da companhia.
Capital para escalar, não para emprestar
Diferentemente de fintechs que atuam diretamente na ponta do crédito, a Anzi não carrega risco em balanço. Seu modelo é de infraestrutura: cria as regras, os mecanismos e os fluxos que permitem que terceiros concedam crédito com mais previsibilidade.
A primeira fase do financiamento foi liderada pela Tritemius VC, com participação de fundos internacionais, investidores estratégicos e apoio institucional, incluindo iniciativas ligadas à inclusão financeira. Ao longo do plano de cinco anos, a expectativa é emitir mais de 7 milhões de garantias, acompanhando a expansão geográfica da plataforma.
“Quando os mecanismos de gestão de risco funcionam melhor, as instituições conseguem ampliar a oferta de crédito”, resume o CEO Matías Marmissolle, segundo o “LatamFintech“.
A aposta é que, em um mercado historicamente travado por ineficiências estruturais, resolver a infraestrutura seja tão ou mais importante do que simplesmente injetar dinheiro.
No fim, a Anzi tenta ocupar um espaço cada vez mais disputado no ecossistema financeiro latino-americano: o de quem constrói os trilhos por onde o crédito pode, finalmente, circular.