Veja o resumo da noticia
- Previsões da Money20/20 indicam que 2026 será o ano da consolidação e escolha de vencedores no setor financeiro, após experimentação em 2025.
- A transformação financeira virá da reorganização de tecnologias existentes como IA, pagamentos instantâneos e embedded finance, e não de uma única disrupção.
- Especialistas preveem inversão de protagonismo na interface financeira, com IA como ChatGPT se tornando um superaplicativo.
- IA expõe a necessidade de dados estruturados e processos robustos, com WealthTech se tornando invisível e operando de forma contínua.
- Regulamentação nos EUA deve alcançar a inovação em IA, criptoativos e tokenização, estabelecendo regras para interoperabilidade e segurança.
- Na Ásia, fintechs combinarão IA com contato humano, respeitando diferenças culturais e construindo confiança em nível comunitário.
- Infraestrutura financeira verá convergência entre TradFi e DeFi, com tokenização de ativos e moedas digitais se integrando aos sistemas tradicionais.
- Pagamentos instantâneos crescerão rapidamente, e o modelo Buy Now, Pay Later será absorvido por cartões e plataformas de e-commerce.

Se 2025 foi o ano da experimentação em larga escala, 2026 tende a ser lembrado como o momento em que o setor financeiro começou a escolher vencedores. Essa é a leitura que emerge das previsões reunidas pela Money20/20, a partir das análises de seus principais especialistas de conteúdo e estratégia na Europa, Estados Unidos e Ásia.
O ponto de partida é quase consensual: a transformação financeira não virá de uma única tecnologia disruptiva, mas da reorganização silenciosa de tudo o que já está em operação, como em inteligência artificial, pagamentos instantâneos, embedded finance, criptoativos e regulação.
Para Oliver Smith, chefe de conteúdo da Money20/20 Europa, a mudança mais profunda não será sentida dentro dos bancos, mas fora deles. Na sua visão, 2026 marca o início de uma inversão de protagonismo na interface financeira.
“Esqueça o Revolut. Em 2026, o ChatGPT se tornará o primeiro superaplicativo financeiro de verdade”, afirma. Segundo Smith, usuários já estão recorrendo a modelos de IA para analisar extratos bancários e tomar decisões financeiras, enquanto bancos e fintechs correm o risco de serem reduzidos a meros provedores de APIs. Eles não perdem clientes imediatamente, mas perdem relevância na relação direta com o usuário.
Essa leitura é complementada por Dhanum Nursigadoo, gerente de conteúdo do Money20/20 Europa, que vê paralelos claros entre o momento atual da IA e o pós-crise de 2008 no setor financeiro. Para ela, a IA “vai mudar tudo mudando quase nada”.
O gargalo não está mais na tecnologia, mas nos fundamentos: dados mal estruturados, processos frágeis, falta de execução e baixa maturidade organizacional. Em outras palavras, a IA expõe quem está preparado e quem não está.
O Futuro da Gestão de Patrimônio e a Ascensão da IA
No segmento de gestão de patrimônio, a previsão é ainda mais radical. Para Charleene Tom, também do time europeu do Money20/20, 2026 será o ano em que a WealthTech se tornará invisível.
A inteligência artificial deixa de ser uma ferramenta acionada pelo usuário e passa a operar de forma contínua e preventiva: investimentos se ajustam sozinhos, alertas surgem antes de erros e o aconselhamento financeiro passa a “interromper” decisões ruins em tempo real.
A clareza regulatória na Europa, segundo ela, cria o ambiente necessário para essa virada em escala.
Regulação e Inovação nos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, o foco das previsões está menos na tecnologia e mais no papel do regulador. Para Virginia Alvarez, gerente de conteúdo do Money20/20 EUA, 2026 será o ano em que a regulação finalmente alcança a inovação.
Com IA, criptoativos, stablecoins e ações tokenizadas avançando simultaneamente, estruturas globais como iniciativas coordenadas pelo G20 devem estabelecer regras mais claras para interoperabilidade, prevenção a fraudes e escalabilidade. O resultado esperado é um sistema financeiro mais seguro, mas também mais eficiente.
A Abordagem Social e Contextual na Ásia
Já na Ásia, o olhar é mais social e contextual. Sheryl Chen, head de conteúdo do Money20/20 Asia, aposta na ascensão dos chamados “orquestradores de finanças comunitárias”.
A tese é que o futuro não será puramente digital. Fintechs vencedoras combinarão infraestrutura de IA com pontos de contato humanos hiperlocalizados, respeitando diferenças culturais, econômicas e comportamentais. Não se trata apenas de escalar tecnologia, mas de construir confiança em nível comunitário.
Essa lógica se conecta à visão de Ian Fong, vice-presidente de conteúdo na Ásia, que aponta o financiamento islâmico como referência ética para o próximo ciclo do setor. Em um momento em que o ESG tenta se reposicionar, o modelo islâmico, baseado em justiça, transparência e responsabilidade, surge como um norte prático, especialmente em mercados emergentes.
Convergência entre TradFi e DeFi
No campo da infraestrutura financeira, Scarlett Sieber, chief strategy & growth officer do Money20/20, destaca que 2026 será o ano em que a convergência entre TradFi e DeFi deixará de ser tese para virar realidade operacional.
Tokenização de ativos, soluções corporativas em blockchain e moedas digitais emitidas por bancos centrais devem começar a se integrar aos sistemas financeiros tradicionais, redesenhando a base sobre a qual o dinheiro circula globalmente.
O crescimento dos Pagamentos Instantâneos
Essa convergência também aparece nas previsões sobre pagamentos instantâneos. Especialistas do Money20/20 apontam que, embora os EUA ainda estejam atrasados em relação a países como Brasil e Índia, o salto será rápido.
A expectativa é que sistemas como RTP e FedNow passem de menos de 5% para algo entre 20% e 25% do volume total de pagamentos até 2026, uma mudança estrutural na forma como o dinheiro se move no país.
A evolução do Buy Now, Pay Later (BNPL)
Outro modelo que deve perder identidade própria é o Buy Now, Pay Later. A leitura predominante é que o BNPL deixará de existir como produto isolado e será absorvido por cartões, carteiras digitais e grandes plataformas de e-commerce. Em vez de startups independentes, o crédito parcelado tende a virar apenas mais uma funcionalidade embutida.
Criptoativos
Por fim, em criptoativos, o tom é de cautela seletiva. A expectativa não é de um colapso generalizado, mas de falhas relevantes em stablecoins algorítmicas menores. O recado é claro: o mercado deve separar, de forma definitiva, projetos experimentais de infraestruturas financeiras de fato confiáveis.
No conjunto, as previsões do Money20/20 apontam para um 2026 menos barulhento — e muito mais decisivo. Um ano em que o setor financeiro deixa de perguntar “o que é possível fazer” e passa a responder “o que realmente funciona, em escala, com confiança e regulação”.