
A Mubadala Capital chegou a apresentar ao Banco Central uma proposta formal para a compra do Will Bank poucos dias antes de a instituição entrar em inadimplência e ter sua liquidação decretada. O movimento revela que, até os momentos finais, ainda havia tentativas de encontrar uma solução de mercado para preservar a operação do banco digital.
Segundo o “Pipeline“, a gestora ligada ao fundo soberano de Abu Dhabi enviou ao Banco Central do Brasil um documento de intenção prevendo um aporte de cerca de R$ 1 bilhão no Will Bank. A proposta, no entanto, vinha acompanhada de uma condição central: a Mubadala não queria assumir a elevada exposição do banco com o Banco Master, estimada entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões em depósitos.
A avaliação da gestora era de que as chances de recuperar esses valores eram reduzidas, dado que o Banco Master já havia sido liquidado pelo BC. Esse passivo cruzado se tornou um dos principais entraves para a concretização do negócio.
Papel do FGC entrou na mesa
Para viabilizar a operação, uma das alternativas discutidas envolvia o Fundo Garantidor de Créditos. A ideia era que o FGC, que tinha uma exposição de R$ 6,3 bilhões relacionada à cobertura de depósitos do Will Bank em novembro, pudesse conceder um empréstimo emergencial, com possibilidade de conversão em participação acionária sob determinadas condições.
A estrutura buscava reduzir o risco para o comprador e permitir que a venda fosse concluída, preservando a operação do banco digital. No entanto, o cenário mudou rapidamente após um novo episódio de deterioração financeira.
Inadimplência com a Mastercard acelerou desfecho
Na segunda-feira (19), o Will Bank deixou de honrar cerca de R$ 100 milhões em pagamentos devidos à Mastercard. Diante da inadimplência, a bandeira decidiu executar garantias. Sem caixa para cumprir a obrigação, a instituição perdeu acesso à infraestrutura de pagamentos, o que levou o Banco Central a decretar a liquidação extrajudicial.
Após a liquidação, a Mastercard passou a figurar entre as principais credoras do Will Bank, com exposição superior a R$ 6 bilhões, nem totalmente coberta por garantias. Ainda assim, a bandeira tem prioridade no recebimento conforme os clientes do banco quitam suas faturas.
Números mostram fragilidade financeira
Dados do Banco Central indicam que, em setembro, a Will Financeira registrava R$ 14 bilhões em passivos e R$ 14,2 bilhões em ativos, incluindo os empréstimos relacionados ao Banco Master. O patrimônio líquido, porém, já era negativo em R$ 76 milhões, sinalizando fragilidade antes mesmo do colapso final.
Procurados, a Mubadala não comentou o assunto e o Banco Central não respondeu até a publicação. O episódio reforça que, apesar das tentativas de resgate, a combinação de exposição cruzada, inadimplência e perda de confiança acabou tornando a liquidação do Will Bank inevitável.