
Até pouco tempo, o comércio digital operava sob uma suposição simples: quem navega, compara e conclui uma compra é uma pessoa. Mesmo com automações no marketing e no atendimento, a jornada principal — busca, decisão e checkout — foi desenhada para interações humanas.
A entrada de agentes de IA nesse fluxo começa a corroer essa suposição. E isso não é apenas uma mudança de interface. É uma mudança de natureza do tráfego, de superfície de risco e de responsabilidades dentro do ecossistema. Duas matérias publicadas na primeira semana de janeiro ajudam a mostrar por que o tema deixou de ser “tendência” e passou a exigir respostas objetivas.
O problema que aparece primeiro não é a compra. É o reconhecimento.
O texto sobre a colaboração entre uma grande rede global de pagamentos e uma gigante de edge/cibersegurança é revelador por um motivo: ele trata o agentic commerce como um problema de reconhecimento e não como um problema de “capacidade da IA”.
Quando agentes autônomos passam a navegar e comprar em nome de consumidores, o varejo precisa diferenciar tráfego automatizado legítimo de abuso automatizado — e precisa fazer isso sem perder o controle do que importa na prática: personalização, segurança e o relacionamento com o consumidor.
A proposta descrita na matéria é combinar a autenticação do chamado Trusted Agent Protocol (TPA) com sinais de comportamento na borda, reconhecimento de usuário e proteção contra bots, permitindo ao comércio obter “insights em tempo real” sobre a atividade do agente antes que ele toque sistemas sensíveis.
Há um detalhe que merece atenção estratégica: a matéria afirma que o protocolo usa “infraestrutura web padrão do setor” e que pode ser escalado com mudanças mínimas na infraestrutura e na experiência do usuário, mirando um universo de “175 milhões de estabelecimentos” que aceitam aquela rede de pagamentos. Isso é linguagem de quem quer padronizar, e não apenas lançar uma funcionalidade.
O crescimento do tráfego automatizado mudou o custo do erro
O texto ainda dá um pano de fundo importante: o aumento expressivo do tráfego de bots “movidos a IA” e o volume registrado no comércio em um curto período, argumento usado para sustentar a tese de que “identidades verificáveis” passam a ser uma necessidade crítica.
Independentemente do número exato, a direção é clara: a automação está ficando mais barata e mais competente. Isso muda o custo do erro para o varejo e para meios de pagamento. Um ambiente onde uma parcela crescente das interações é automatizada exige outro tipo de instrumentação: sinais mais ricos, mais correlação de contexto e mais decisão em tempo real — porque a mesma automação que reduz atrito pode também escalar abuso.
Superagentes “para dentro” do varejo: eficiência, mas com maturidade
A segunda matéria amplia o quadro ao discutir “superagentes” aplicados não apenas à compra, mas à operação do varejo: resiliência do e-commerce, análise de sentimento, precificação dinâmica, e ganhos incrementais que evitam projetos longos e complexos.
Ela traz duas mensagens que, em conjunto, são úteis para uma leitura pragmática em 2026:
• Uma projeção atribuída ao Gartner: até o final de 2026, uma parcela relevante das aplicações corporativas estaria integrada a agentes, saindo de um patamar atual baixo.
• Um alerta de maturidade: agentes não devem ser implementados “porque estão no hype”; precisam estar integrados, com foco em valor real, agilidade e segurança.
A matéria também menciona a ISO 42001 como referência de gestão segura e reforça a necessidade de validação humana para mitigar respostas incorretas (“alucinações”). Esse é um ponto-chave: quando agentes passam a recomendar ou executar ações, governança deixa de ser um capítulo de compliance e vira componente do produto e da operação.
O que esses dois textos, juntos, sinalizam para 2026
Vistos em conjunto, os dois artigos apontam para uma evolução importante do debate:
- O primeiro gargalo do agenticcommerce é identidade e segurança, não “capacidade do modelo”. O varejo precisa reconhecer o agente, o usuário representado e a intenção, com confiabilidade operacional.
- A escala depende de mecanismos que funcionem entre empresas, não só dentro de uma empresa. Quando aparecem protocolos e integrações com pretensão de padronização, o tema deixa de ser experimento e entra na agenda de infraestrutura.
- A adoção interna de agentes no varejo tende a avançar onde há eficiência e resiliência, mas exige governança, limites e supervisão proporcional ao risco — especialmente em áreas como atendimento, pricing e decisões automatizadas que afetam consumidores.
Para meios de pagamento, a consequência é direta: conforme compra e pagamento se aproximam e a jornada busca reduzir atrito, cresce a responsabilidade de manter a confiança do sistema. E, em 2026, essa confiança passa cada vez mais por um tema que durante anos ficou “nos bastidores”: autenticação, sinais de risco e controle do tráfego automatizado.
Referências: Akamai e Visa colaboram para agregar confiança ao comércio agêntico e Como super agentes de IA podem revolucionar o varejo em 2026.
Edson Santos é Conselheiro, Consultor, Advisor e Investidor Anjo, com mais de 25 anos de experiência em meios de pagamento e serviços financeiros, autor do livro “Do Escambo à Inclusão Financeira - A evolução dos meios de pagamento” e coautor de “Payments 4.0 - As forças que estão transformando o mercado brasileiro”.
Edson Santos é Conselheiro, Consultor, Advisor e Investidor Anjo, com mais de 25 anos de experiência em meios de pagamento e serviços financeiros, autor do livro “Do Escambo à Inclusão Financeira - A evolução dos meios de pagamento” e coautor de “Payments 4.0 - As forças que estão transformando o mercado brasileiro”.