
A IA agêntica, sistemas capazes de agir de forma autônoma, tomar decisões e executar tarefas em nome de usuários e empresas, está deixando de ser apenas uma promessa técnica para se tornar uma disputa estrutural. E, como toda infraestrutura emergente, ela está forçando as grandes empresas de tecnologia a escolher lados.
De um lado, cresce o movimento por padrões abertos, protocolos compartilhados e governança coletiva. Do outro, avança uma estratégia de integração vertical, com controle rígido da tecnologia, dos dados e dos fluxos econômicos. O embate não é sobre modelos isolados, mas sobre quem vai definir as regras do jogo na próxima camada da economia digital.
O marco mais recente dessa disputa veio com o lançamento da Agentic AI Foundation (AAIF), iniciativa liderada pela Block em parceria com Anthropic e OpenAI, sob a governança da Linux Foundation. A proposta é clara: criar uma base técnica comum para a construção e operação de agentes de IA, evitando que a tecnologia se fragmente em silos proprietários logo em sua fase inicial.
A fundação nasce com ambições semelhantes às que moldaram a internet moderna. Assim como o Linux ou o W3C estabeleceram padrões que permitiram inovação em larga escala, a AAIF quer garantir que a infraestrutura da IA agêntica permaneça interoperável, acessível e competitiva.
O argumento central é que as escolhas feitas agora, de protocolos, formatos e governança, vão determinar se a IA autônoma será um ecossistema aberto ou um conjunto de plataformas fechadas controladas por poucos fornecedores.
Esse movimento não é apenas filosófico. A Block contribuiu com seu framework de agentes de código aberto, o goose, enquanto Anthropic e OpenAI adicionaram, respectivamente, o Model Context Protocol e o AGENTS.md.
Juntos, esses componentes formam uma camada técnica compartilhada que permite que agentes conversem entre si, acessem dados e utilizem ferramentas de forma padronizada. É uma aposta explícita de que a escala da IA agêntica virá da infraestrutura comum, não de produtos isolados.
O peso da iniciativa fica evidente pela adesão de nomes como Google, AWS, Microsoft, IBM e diversos players de pagamentos e nuvem. Mas uma ausência chama atenção: a Meta.
Apesar de historicamente associada ao discurso de código aberto com o Llama, a Meta ficou fora da fundação. Relatórios recentes indicam que essa não é uma decisão circunstancial. A empresa estaria migrando para uma estratégia mais proprietária, centrada em novos modelos de monetização e maior controle sobre dados, governança e distribuição. Na prática, isso expõe uma distinção importante: abertura na distribuição não significa abertura no controle.
Enquanto boa parte da indústria caminha para padrões interoperáveis como forma de acelerar a adoção empresarial da IA agêntica, a Meta aposta na integração vertical. Essa abordagem pode facilitar monetização, otimização de desempenho e controle da experiência, mas tem um custo claro: o isolamento em um ecossistema que começa a se organizar em torno de normas compartilhadas.
Essa divisão não elimina a competição, pelo contrário. Ela a intensifica em outra camada. Nos últimos dias, o Google apresentou uma versão expandida do Gemini Deep Research, enquanto a OpenAI lançou o GPT-5.2, em uma sequência quase simultânea. A disputa deixa de ser apenas sobre “quem tem o melhor modelo” e passa a envolver velocidade de lançamento, integração com produtos existentes e acesso de desenvolvedores.
O movimento do Google é emblemático. Ao oferecer agentes de pesquisa mais avançados via API e integrá-los a produtos como Busca, Google Finanças e NotebookLM, a empresa sinaliza um futuro em que usuários não “pesquisam” mais, pois seus agentes fazem isso por eles. Nesse cenário, confiabilidade, redução de alucinações e capacidade de operar autonomamente por longos períodos tornam-se ativos estratégicos.
O que se desenha, portanto, é uma bifurcação clara no caminho da IA agêntica. De um lado, empresas que veem agentes como infraestrutura, algo que precisa ser padronizado para destravar inovação em escala. De outro, empresas que tratam agentes como produto, algo a ser controlado, protegido e monetizado dentro de fronteiras bem definidas.
Essa escolha terá impactos duradouros. Ela vai moldar parcerias, compatibilidade entre sistemas, poder de barganha com desenvolvedores e, sobretudo, quem terá influência real sobre a próxima geração de aplicações autônomas. Mais do que uma disputa técnica, a IA agêntica se revela um jogo de governança. E, como toda infraestrutura crítica, quem define os padrões tende a definir o futuro.