BC, Will Bank e a 'bola de neve' do Master

Bom dia!

O Banco Central voltou ao centro do noticiário ao decretar a liquidação do Will Bank, ampliando os efeitos do colapso do Banco Master e reacendendo o debate sobre governança e risco no sistema financeiro. No exterior, o jogo também acelerou. O Capital One foi às compras e fechou a aquisição da Brex, em um dos maiores deals recentes do universo fintech, reforçando a consolidação no mercado de serviços financeiros para empresas.

E, no varejo, o Pix segue esticando seus limites. O Bradesco lançou uma nova modalidade de Pix parcelado fora do cartão de crédito, antecipando um movimento que o próprio Banco Central ainda prepara para o sistema como um todo.

Na Let’s Money de hoje:

  • 🏦 BC, Will Bank e a bola de neve do Master: Banco Central decreta a liquidação do Will Bank, aciona o FGC e amplia os efeitos do colapso do Banco Master sobre pagamentos, investidores e governança.
  • 💼 Capital One compra a Brex: Banco americano paga US$ 5,15 bilhões pela fintech e mira um mercado de US$ 2 trilhões em pagamentos B2B, acelerando a consolidação do setor.
  • 💳 Pix avança sobre o crédito: Bradesco lança Pix parcelado fora do limite do cartão e antecipa disputa direta com o cartão antes do Pix Parcelado do BC.

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BC e Will: quando a bola de neve começa a rolar

A liquidação extrajudicial do Will Bank não foi um evento isolado, nem um raio em céu azul. Foi o ponto em que uma bola de neve, formada meses antes, finalmente ganhou peso demais para ser contida. O Banco Central apenas oficializou um desfecho que o mercado já intuía desde novembro, quando o Banco Master, controlador do Will, entrou em colapso.

A decisão assinada por Gabriel Galípolo escancara a lógica do regulador: quando a insolvência deixa de ser pontual e passa a contaminar estruturas ligadas por controle, governança e fluxo financeiro, não há espaço para soluções intermediárias. O que começou como um problema no Master virou um risco sistêmico em potencial, e o Will Bank estava no caminho.

Do RAET à liquidação: o ponto sem retorno

Desde a liquidação do Banco Master, a Will Financeira operava sob Regime Especial de Administração Temporária (RAET). Naquele momento, o BC ainda enxergava uma possibilidade, ainda que remota, de preservação da operação. Essa janela se fechou no instante em que a instituição deixou de honrar compromissos básicos de infraestrutura.

O gatilho foi objetivo: o calote à Mastercard. A inadimplência levou ao bloqueio da participação do Will no arranjo da bandeira e, na prática, inviabilizou a continuidade da operação. Sem cartão, sem pagamentos, sem Pix. A bola de neve, que já vinha descendo a ladeira, acelerou.

A partir daí, a liquidação deixou de ser uma escolha regulatória dura para se tornar, nas palavras do próprio BC, inevitável.

Infraestrutura de pagamentos não perdoa erro de caixa

Os desdobramentos ajudam a explicar por que crises financeiras hoje não ficam restritas ao balanço. Quando uma fintech depende de infraestrutura de pagamentos para existir, falhar financeiramente significa parar de operar quase instantaneamente.

O efeito foi visível: Pix fora do ar, pagamentos suspensos, cartões bloqueados e clientes sem acesso aos próprios recursos. O aplicativo funcionava, mas o dinheiro não circulava. É o tipo de colapso que não se resolve com comunicação ou promessas, apenas com liquidação ou resgate.

Nesse contexto, a cobertura do FGC entra como amortecedor social, não como solução de mercado. Os CDBs do Will passam a ser garantidos até R$ 250 mil por CPF, dentro de um processo que já se desenha como o maior desembolso da história do fundo, somando Master e controladas.

A bola de neve chega fora do sistema bancário

Talvez o aspecto mais simbólico do caso seja a execução de garantias por uma empresa que não é banco: a Mastercard. Ao executar dívidas do Will, a bandeira acabou se tornando acionista relevante do BRB e controladora da Westwing, posições claramente não estratégicas, assumidas como consequência de gestão de risco.

É um retrato moderno da crise financeira: infraestruturas globais de pagamento sendo forçadas a entrar no jogo societário para proteger créditos, enquanto reguladores tentam conter o contágio antes que ele se espalhe.

BC endurece e manda um recado

A reação institucional fecha o ciclo. A Febraban saiu em defesa explícita do Banco Central, reforçando que regimes de resolução existem justamente para retirar instituições insolventes do sistema antes que o problema escale. Não é punição, é contenção.

A tentativa frustrada do Mubadala de comprar o Will Bank ajuda a completar o quadro. Havia interesse, havia capital, mas ninguém queria herdar a exposição cruzada com o Master. Quando a bola de neve cresce demais, nem dinheiro resolve porque o risco já não é financeiro, é estrutural.

O que fica do caso Will–Master

O episódio deixa uma mensagem clara para o mercado: fintechs podem crescer rápido, mas governança, segregação de risco e solidez de caixa continuam sendo inegociáveis. Infraestrutura de pagamentos não aceita improviso, e o Banco Central mostrou que está disposto a agir antes que o custo seja coletivo.

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Quando o bancão compra a fintech

Samuel L. Jackson, “garoto propaganda” do Capital One, com o cartão da Brex | Foto: Startups/divulgação

A compra da Brex pelo Capital One por US$ 5,15 bilhões diz menos sobre um “exit” isolado e mais sobre uma mudança estrutural no mercado financeiro. A fintech que nasceu para resolver o caos financeiro das startups agora passa a ser a peça central da estratégia de um dos maiores bancos dos Estados Unidos para dominar os pagamentos empresariais, um mercado estimado em US$ 2 trilhões por ano.

Não é só uma aquisição. É um reposicionamento.

O Capital One, historicamente forte em cartões, deixa claro que cartões sozinhos não bastam mais. O jogo agora envolve contas a pagar, contas a receber, gestão de gastos, aprovações, conciliação e dados, tudo integrado. E é exatamente esse “sistema operacional financeiro” que a Brex construiu.

De disrupção a infraestrutura

A trajetória da Brex ajuda a entender o momento. Fundada em 2017 por Pedro Franceschi e Henrique Dubugras, a fintech cresceu surfando o boom das startups, oferecendo crédito, cartões e software para empresas jovens, capitalizadas e pouco atendidas pelos bancos tradicionais. Chegou a valer mais de US$ 12 bilhões em 2022.

Mas o mercado mudou. O dinheiro ficou caro, o crescimento virou eficiência e o discurso de volume perdeu força. A Brex encolheu, reposicionou clientes, cortou custos e saiu da corrida por IPO. Nesse novo cenário, virar parte de um bancão deixou de ser derrota e passou a ser estratégia de sobrevivência e de escala.

A tese do Capital One

Durante a teleconferência de resultados, o CEO Richard Fairbank foi direto: pagamentos sempre foram o vetor de transformação dos serviços financeiros. A Brex acelera uma aposta antiga do banco, que já vinha construindo musculatura no B2B e agora ganha uma plataforma pronta, validada e global.

Enquanto a Brex entrega software, automação e experiência, o Capital One aporta funding, distribuição e balanço. É a combinação clássica do novo ciclo das fintechs: a tecnologia não substitui o banco, ela se acopla a ele.

Não por acaso, o banco já havia pago US$ 35 bilhões pela Discover. A Brex entra como a peça que faltava no tabuleiro corporativo.

Nem todo mundo venceu, mas o jogo mudou

O mercado reagiu com cautela. As ações do Capital One caíram no curto prazo, refletindo preocupações com diluição e retorno. Para investidores que entraram tarde na Brex, o valuation final soou amargo. Para rivais como a Ramp, o movimento reforça que a disputa agora é com bancos, não apenas com outras fintechs.

Para os fundadores, o acordo é um “pouso seguro”. Para o sistema financeiro, é um sinal claro:
o ciclo da fintech disruptiva dá lugar ao da fintech como infraestrutura bancária.

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O Pix que vira crédito antes da regra

Foto: Divulgação

O Bradesco decidiu não esperar o Pix Parcelado do Banco Central para testar o próximo passo do sistema. Com o lançamento do “Pix com Crédito”, o banco passa a permitir transferências via Pix parceladas fora do limite do cartão de crédito, usando uma linha pré-aprovada vinculada diretamente à conta corrente. Para quem recebe, nada muda: o valor cai à vista, instantaneamente. Para quem paga, o Pix passa a funcionar como canal direto de crédito, com parcelas debitadas mensalmente da conta.

A novidade rompe com o modelo mais comum no mercado, em que o Pix parcelado funciona como uma compra no cartão, consumindo limite e indo para a fatura. Ao tirar o cartão da equação, o Bradesco ganha mais flexibilidade para definir juros, prazos e políticas de risco, além de ampliar o acesso à funcionalidade mesmo para clientes sem limite disponível. É o Pix deixando de ser apenas meio de pagamento e passando a disputar espaço direto no território do crédito.

O movimento acontece enquanto o mercado aguarda a implementação do Pix Parcelado pelo Banco Central, prevista como uma alternativa estruturada ao cartão de crédito. Ao se antecipar, o Bradesco testa comportamento, aceitação e rentabilidade antes da padronização regulatória. O recado é claro: quando a regra chegar, parte do mercado já estará operando, e aprendendo, há algum tempo.

Entrevista
Nos vemos na próxima edição!

Sempre às terças.

Abraços,

Equipe Let’s Money

Gabriel Rios

Editor-chefe

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.