Arte: Abílio Sousa | Dir Arte Let’s Media
Arte: Abílio Sousa | Dir Arte Let’s Media

Bom dia!

O ano começa com o tabuleiro financeiro em movimento e algumas dores de cabeça já bem identificadas. Nesta edição, o Nubank volta ao centro da conversa não por resultados, mas pela crescente sombra de um concorrente global: a Revolut, que acelera expansão, cruza mercados estratégicos e passa a disputar o mesmo território internacional do roxinho.

Enquanto isso, o Inter avança em silêncio, mas com aval regulatório. A autorização do Federal Reserve para abertura de uma filial em Miami marca mais um passo concreto da fintech brasileira no sistema financeiro americano, em um jogo de longo prazo que privilegia presença, aprendizado e musculatura regulatória.

E, olhando além do curto prazo, o Banco Central começa a desenhar o próximo capítulo da infraestrutura financeira do país. A integração entre Pix, Open Finance e Drex até 2029 indica que o regulador não quer apenas inovação pontual, mas um sistema conectado, programável e preparado para a próxima década.

Na Let’s Money de hoje:

  • 🤕 A dor de cabeça do Nubank: Revolut acelera expansão global, avança na América Latina e nos EUA e passa a disputar os mesmos mercados estratégicos do roxinho.
  • 🇺🇸 Inter ganha terreno nos EUA: Fintech recebe aval do Fed para abrir filial bancária em Miami e amplia atuação em depósitos e crédito, sem licença bancária plena.
  • 🔗 BC olha para 2029: Banco Central prevê integração de Pix, Open Finance e Drex para criar uma infraestrutura financeira unificada, mais eficiente e programável.

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Fintech global bate à porta do Nubank

Depois de anos sendo citado como referência global em banco digital, o Nubank passou a conviver com um incômodo novo e crescente. A aceleração da Revolut em mercados estratégicos não muda o jogo de um dia para o outro, mas transforma a paisagem. O Nubank não “ganhou” uma rival agora. Ele passou a ter uma dor de cabeça estrutural.

A fintech britânica avança exatamente onde o Nubank aposta seu segundo ato: América Latina e Estados Unidos. México e Colômbia já estão no bolso da Revolut, com licença bancária aprovada. Nos EUA, a empresa avalia aquisições para encurtar o caminho regulatório. O Nubank também quer essa licença, mas o próprio mercado estima que o processo pode levar anos. Não é uma corrida de velocidade, mas de posicionamento.

O resultado é um cenário em que as duas fintechs deixam de coexistir em universos paralelos e começam a disputar o mesmo futuro.

Quando o sucesso vira ponto de comparação

Por muito tempo, o Nubank foi comparado a bancos tradicionais. Agora, passa a ser comparado a uma fintech que joga outro jogo. A Revolut opera em cerca de 40 países, soma mais de 65 milhões de clientes globais e cresce em ritmo industrial. Mesmo sem IPO, já se aproxima do valuation do Nubank.

A diferença não está só nos números, mas no desenho do negócio. O Nubank construiu sua escala a partir de mercados domésticos gigantes, com crédito como motor central. A Revolut nasceu global, com produtos pensados desde o início para múltiplas moedas, fronteiras e regulações. Um modelo menos dependente de crédito e mais apoiado em serviços financeiros internacionais. Isso não torna um melhor que o outro. Mas torna o confronto inevitável.

O Brasil como teste, não como vitrine

A entrada mais agressiva da Revolut no Brasil ajuda a entender o desconforto. O discurso é pragmático: o país só ganha prioridade se entregar unit economics acima da média global. Não há romantismo, nem disputa simbólica. Há planilha.

Esse raciocínio explica decisões como reduzir spread de câmbio mesmo sem pressão competitiva direta. Eficiência primeiro, margem depois. O Nubank, por outro lado, construiu sua força exatamente explorando as ineficiências do sistema financeiro local e monetizando crédito em escala. São duas filosofias distintas olhando para o mesmo tabuleiro.

A dor de cabeça não é hoje, é o que vem depois

A Revolut não ameaça o Nubank no curto prazo. Não disputa sua base no Brasil nem seu domínio regional. A dor de cabeça é outra: trata-se de quem será o banco digital global de referência quando fronteiras financeiras importarem menos que infraestrutura, licenças e eficiência operacional.

O Nubank ainda é o maior case latino-americano de fintech do mundo. Mas, pela primeira vez, divide o palco com alguém que não está tentando copiar o caminho, está propondo outro.

E é assim que surgem as dores de cabeça mais incômodas: não como crises imediatas, mas como comparações inevitáveis sobre quem está mais preparado para o próximo ciclo.

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Quando entrar é melhor do que chegar

Foto: Divulgação

A autorização do Federal Reserve para o Inter abrir uma filial bancária em Miami não transforma a fintech em um banco americano, e esse é justamente o ponto. Ao optar por uma state-licensed branch, o Inter escolhe o caminho da presença regulada sem assumir, por ora, o custo político, operacional e de capital de uma licença bancária plena nos EUA. É menos glamour, mais cálculo.

Essa estratégia intermediária revela maturidade. O banco passa a captar depósitos, conceder crédito e integrar operações que antes estavam espalhadas em estruturas paralelas, tudo isso enquanto constrói histórico com o regulador americano. Em vez de pedir a chave da casa logo na entrada, o Inter prefere sentar na sala, observar o ambiente e entender as regras do jogo.

O tabuleiro ficou mais concorrido

O movimento também precisa ser lido em contexto. BTG comprou banco em Nova York. Nubank pediu licença e aguarda. Revolut avança globalmente sem depender tanto de crédito. O Inter escolhe um meio-termo: entra regulado, mas sem se comprometer com o pacote completo de exigências que um banco comercial americano impõe.

A fala de João Vitor Menin deixa isso explícito. A filial na Flórida não é um experimento, é um pilar estratégico. A possibilidade de captar depósitos em dólar, operar crédito localmente e reduzir dependência do Brasil adiciona uma camada de resiliência que poucas fintechs brasileiras conseguiram construir até aqui.

Aprender antes de acelerar

Mais do que competir com bancos americanos, o Inter parece interessado em algo mais sutil: aprender operando. Estar dentro do sistema financeiro dos EUA, ainda que com limites, permite testar produtos, entender funding, calibrar risco e, sobretudo, decidir se vale, e quando vale, pedir licença para jogar o jogo completo.

Em um cenário em que muitas fintechs anunciam ambições globais, poucas escolhem crescer com esse nível de pragmatismo. O Inter entrou. Não chegou ainda. E, pelo histórico do banco, isso dificilamente é acidente.

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O sistema financeiro que o BC quer entregar em 2029

BC
Foto: Abner Garcia / Let’s Money

O Banco Central já escolheu onde quer estar no fim da década. A integração entre Pix, Open Finance, Drex e tokenização de ativos até 2029 não é apenas um plano tecnológico, mas uma tentativa explícita de unificar as três camadas que hoje operam separadas no sistema financeiro: dinheiro, informação e ativos. Na visão apresentada por Rogério Lucca, secretário-executivo do BC, o Pix foi só o ensaio geral. O próximo ato envolve levar a eficiência do pagamento instantâneo para crédito, garantias, mercado de capitais e serviços financeiros programáveis.

O desenho é claro. O Pix resolve a movimentação; o Open Finance quebra o monopólio da informação; o Drex e a tokenização prometem liquidação atômica, automação de garantias e redução de fricções jurídicas e operacionais. Separados, cada projeto tem impacto limitado. Integrados, formam uma infraestrutura pública capaz de reconfigurar crédito, funding e uso de ativos. Não por acaso, o BC passou a tratar Drex e tokenização como indissociáveis: sem ativos digitais reais, o Drex perde função; sem governança pública, a tokenização não escala além de pilotos.

O caminho, porém, não é linear. O próprio BC admite que o Drex precisou ser reestruturado após limites técnicos e escolhas iniciais que não entregaram o que se esperava. O foco agora migra da tecnologia pela tecnologia para casos de uso concretos, especialmente crédito e garantias. Ao mesmo tempo, a autoridade reforça o cerco regulatório: mais supervisão sobre infraestrutura, prestadores de serviços e capital mínimo, deixando claro que inovação só avança com governança. Se o plano até 2029 se concretizar, o Brasil não apenas preserva o protagonismo conquistado com o Pix, mas tenta algo mais ambicioso: transformar sua infraestrutura financeira em uma base única, interoperável e programável, capaz de sustentar a próxima geração do sistema financeiro.

Entrevista
Nos vemos na próxima edição!

Sempre às terças.

Abraços,

Equipe Let’s Money

Gabriel Rios

Editor-chefe

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.