
O mercado de patrocínios esportivos no Brasil vive uma virada radical. Apenas 12 dos 20 clubes da Série A do Brasileirão começaram 2026 com casas de apostas como patrocinador máster — uma queda brusca em relação a 2025, quando 18 times estampavam bets nas camisas. Bahia, Coritiba, Grêmio, Internacional, Santos e Vasco iniciaram a temporada sem o principal patrocínio, todos eles até recentemente bancados por empresas de apostas.
A mudança tem explicação direta: a regulamentação do setor de apostas esportivas, que entrou plenamente em vigor em janeiro de 2025 após anos de operação em vácuo regulatório. As novas regras impuseram tributação de 12% sobre a receita bruta das operadoras (descontados os prêmios pagos), identificação facial obrigatória dos apostadores e outorga de R$ 30 milhões por empresa para operar legalmente no país.
Arrecadação dispara, mas setor contém custos
Segundo o Invest News, o impacto da nova tributação foi imediato. A Receita Federal arrecadou R$ 9,95 bilhões com as bets em 2025 — um salto de 11.000% em relação aos míseros R$ 91 milhões de 2024. O Sistema de Gestão de Apostas (Sigap) estimou que a receita bruta do setor alcançou R$ 37 bilhões no ano.
Com margens apertadas pela carga tributária, as casas de apostas cortaram investimentos em marketing. A Estrela Bet, que patrocinava sete clubes em 2024, zerou todos os contratos no fim de 2025. O Santos rompeu antecipadamente seu acordo com a 7K — o maior da história do clube paulista — e deixou de embolsar R$ 54 milhões previstos para este ano.
Casos como Grêmio e Internacional ilustram a turbulência. Ambos rescidiram contratos com a Alfa após atrasos nos pagamentos, e o Vasco perdeu a parceria com a Betfair que rendia R$ 70 milhões anuais. Enquanto isso, o Flamengo mantém o maior patrocínio do futebol brasileiro: R$ 268,5 milhões por ano com a Betano, válido até 2028.
Pressão tributária pode aumentar
A insegurança jurídica também pesa. O Congresso aprovou em dezembro de 2025 um aumento gradual da tributação sobre as bets: de 12% para 13% em 2026, 14% em 2027 e 15% em 2028. Além disso, tramita a Cide-Bets, que prevê cobrança adicional de 15% sobre depósitos feitos pelos apostadores — medida que executivos do setor classificam como inédita no mundo.
Para André Gelfi, CEO da Betsson no Brasil, a euforia pré-regulação inflou artificialmente os valores dos contratos. A empresa patrocinou o Athletico Paranaense entre 2022 e 2023, mas se afastou do futebol brasileiro diante da escalada de preços. Hoje, prefere investir em clubes argentinos como Boca Juniors e Racing.
Apesar da retração, especialistas não preveem o fim das bets no futebol. Como o esporte é o principal tema das apostas, a tendência é que os investimentos retornem após o ajuste regulatório — mas em valores mais realistas e com contratos mais seletivos.