O dr.consulta vai criar uma wallet de histórico clínico com R$ 30 milhões, dos quais R$ 21 milhões vêm de empréstimo da FINEP e R$ 9 milhões do próprio caixa, para reunir exames, consultas, laudos e vacinas sob controle do paciente, que decide com quem compartilha. O projeto antecipa o Open Health que o Ministério da Saúde ainda está regulamentando.
dr.consulta: investimento na wallet de saúde
| Item |
Detalhe |
| Empréstimo FINEP |
R$ 21 milhões |
| Contrapartida dr.consulta |
R$ 9 milhões |
| Total do projeto |
R$ 30 milhões |
| Carência do empréstimo |
18 meses |
| Juros |
50% do CDI |
| Condição FINEP |
Tecnologia compatível com o SUS |
Financiamento do projeto wallet do dr.consulta. Fonte: Brazil Journal
A wallet que o paciente carrega
A ideia central é inverter a lógica da fragmentação: em vez de os sistemas de saúde tentarem se conectar entre si, o paciente vira o vetor da própria informação. A wallet vai agregar o histórico de exames, atendimentos, laudos e vacinas ao longo do tempo, e o paciente apresenta esses dados em qualquer serviço de saúde que escolher. “A duplicidade, até triplicidade, que a gente tem de repetição de consultas e exames é um dos grandes problemas do setor de saúde”, disse o CEO Massanori Shibata Jr. ao Brazil Journal. Fraudes e desperdícios retiram R$ 12 de cada R$ 100 faturados pelas empresas de saúde suplementar no País, e parte do problema está nessa redundância de procedimentos.
A tecnologia que vai sustentar a wallet é a Veri, agente de inteligência artificial do dr.consulta integrado ao WhatsApp, que já acompanha o paciente do agendamento ao pós-consulta. Segundo o CTO Paulo Yoo, que acaba de assumir o cargo, a Veri vai transformar dados em ação: lembrando o paciente de fazer preventivos, alertando sobre exames em atraso e sugerindo retornos. A carência de 18 meses no empréstimo da FINEP coincide com o prazo que a empresa estima para colocar o projeto em operação.
A condição da FINEP e o mercado sem plano
A FINEP, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, financia projetos que possam fortalecer o SUS. Por isso, a wallet não será desenvolvida apenas para os 4 milhões de pacientes do dr.consulta: qualquer tecnologia criada no projeto precisa poder ser compartilhada com o governo. Essa cláusula alinha o incentivo da empresa com o objetivo de ampliar o acesso. O contexto de mercado justifica a aposta: mais de 100 milhões de brasileiros não têm plano de saúde e recorrem ao serviço pago quando precisam.
“Quando sentem uma dor ou recebem um resultado de exame assustador, não esperam três semanas na fila do SUS. Eles pagam”, disse Shibata Jr. O dr.consulta diz conseguir consultas com especialistas em até quatro dias, contra 15 dias na saúde suplementar e até 30 no SUS.
O projeto se encaixa no mesmo horizonte de iniciativas de portabilidade de dados inspiradas no Open Finance. O Ministério da Saúde trabalha nas regras do Open Health para integrar informações entre clínicas, hospitais e operadoras, mas o arcabouço regulatório ainda está sendo construído. A wallet do dr.consulta opera no espaço entre a demanda real do paciente e a regulação ainda pendente.
Turnaround e nova fase de crescimento
A wallet marca uma nova fase após o turnaround iniciado em 2023, quando Shibata Jr. e Paulo Yoo chegaram com passagens pela NotreDame Intermédica. Em 2022, a healthtech havia levantado R$ 170 milhões em Série D liderada pela Kamaroopin, gestora comprada pelo Pátria em 2023, e crescido rápido demais. A pandemia forçou o fechamento de unidades e um pivô para telemedicina, mas sem resolver o problema estrutural. A gestão identificou dispersão: a empresa fazia muita coisa e não as fazia bem.
Saiu do segmento de telemedicina (firmou parceria com a Conexa) e de prescrição eletrônica (passou a contratar a Mevo), e fechou parcerias para oncologia (com a rede Croma, da Brad Saúde) e cirurgias (com a Rede Américas). A companhia atingiu o breakeven em abril de 2024.
O plano agora é abrir até três unidades em São Paulo, onde já opera 30 clínicas, e quatro no Rio de Janeiro. Sobre capital adicional, Shibata Jr. foi direto: “Podemos ter capital adicional? Sim. Mas não vou dizer que é algo mega necessário para nós hoje.”
O que observar
A wallet resolve um problema real, mas depende de adoção ativa: o paciente precisa querer carregar e apresentar seus dados, o que exige mudança de comportamento em um segmento historicamente passivo. O segundo ponto é o regulatório: o governo ainda não publicou as regras do Open Health, o que significa que a interoperabilidade entre a wallet e sistemas de operadoras e hospitais depende de acordos bilaterais ou espera pela regulação.
A cláusula de compatibilidade com o SUS é ao mesmo tempo um diferencial competitivo na captação de financiamento público e uma restrição de produto: a tecnologia precisará servir a dois públicos com necessidades diferentes. Por fim, vale acompanhar se o prazo de 18 meses se traduz em produto funcional ou em protótipo regulatório, já que o financiamento público é estruturado justamente sobre esse horizonte.
Fontes: Brazil Journal • Let’s Money • Let’s Money