
O Open Finance nasceu com uma promessa poderosa: dar ao usuário controle sobre seus dados financeiros e, com isso, estimular a concorrência e melhorar produtos. Essa etapa foi necessária, mas não esgota o potencial da agenda. Ao acompanhar os debates mais recentes sobre isso na América Latina, especialmente os debates da Argentina Fintech Forum, fica evidente que estamos direcionando a atenção para o lugar errado.
O Open Finance que definitivamente vai mover a economia não é apenas o que conecta bancos entre si. É o que une o sistema financeiro ao que realmente movimenta renda, produção e consumo no país. A leitura mais valiosa que emerge das discussões regionais é direta. Dados bancários explicam apenas uma fração da vida econômica de pessoas e empresas. O restante está espalhado em padrões de consumo, obrigações fiscais, pagamentos de serviços essenciais, comportamento de caixa e relações com fornecedores que nunca aparecem no extrato.
Se a intenção é melhorar crédito, eficiência e inclusão, focar apenas no dado bancário é insuficiente. A Argentina colocou isso no centro de sua estratégia ao priorizar informações que reduzem a incerteza e tornam decisões mais precisas.
Essa abordagem introduz uma provocação que o Brasil ainda não enfrentou de forma estruturada. O Open Finance que estamos construindo é um projeto tecnológico ou econômico? Se for apenas tecnologia, continuaremos ampliando APIs e conectividade. Se for econômico, a prioridade precisa ser o impacto: ampliar acesso a crédito, reduzir assimetria de informação e fortalecer pequenos negócios em regiões que não participam plenamente da economia formal. Abrir dados sem transformar decisões não é evolução. É só complexidade desnecessária.
Outro ponto relevante das discussões argentinas é a crítica ao modelo maximalista. Tentar regular e integrar tudo ao mesmo tempo não acelera a inclusão, apenas cria custos elevados de conformidade. Uma expansão modular, guiada por casos de uso concretos, como feito no Brasil, tende a gerar resultados mais rápidos e sustentáveis. Um caminho que vai contra a tendência de transformar o Open Finance em um grande exercício de arquitetura, quando o foco deveria ser resolver dores reais da economia.
Esse contraste também expõe uma diferença de distribuição de benefícios. No Brasil, os primeiros ganhos dessa infraestrutura foram desenvolvidos em uma parceria entre grandes instituições e fintechs, que tinham grande capacidade de integração e analytics. Na Argentina, o debate parte do outro extremo: como fazer o sistema nascer útil para quem não tem infraestrutura tecnológica. Essa inversão de perspectiva desloca o Open Finance da bolha de inovação para o campo da política econômica aplicada, onde ele pode gerar impacto mais profundo.
O ponto central é que o Open Finance latino-americano está entrando em uma fase em que abrir dados já não é mais a métrica relevante. O verdadeiro indicador de maturidade passa a ser a capacidade de transformar informação dispersa em decisões melhores, tanto para instituições quanto para usuários. Essa é a fronteira que separa experimentação de impacto econômico.
O aprendizado que trago das discussões recentes na região é que o avanço não virá do aumento do volume de APIs, mas da escolha criteriosa dos dados que realmente reduzem a incerteza. Em vez de tentar abraçar tudo ao mesmo tempo, o ecossistema precisa priorizar o que de fato destrava crédito mais justo, preços mais eficientes e inclusão que não dependa de grandes estruturas tecnológicas.
Se o início do Open Finance foi marcado por entusiasmo e padronização, seu futuro será definido por relevância. Os sistemas mais eficazes serão aqueles capazes de traduzir a economia real com precisão, integrando setores que historicamente ficaram fora do radar financeiro. O Open Finance que fará diferença não será o que se adapta melhor a sistemática dos bancos. Será o que entende melhor o país e as pessoas que movem sua economia.