Em dezembro de 2020, um advogado, um analista de sistemas e um engenheiro fundaram o Prata Digital com capital do próprio bolso. Nenhum dos três vinha do mercado financeiro. Cinco anos depois, a fintech acumula R$ 2 bilhões em originação de crédito, mais de 5 milhões de contratos e R$ 1,8 bilhão sob gestão em veículos de investimento próprios com rating AAA da Moody’s.
Linha do tempo do Grupo Prata
Quando
Marco
Dez 2020
Fundação com capital próprio dos três sócios
Abr 2022
Primeiro contrato com bancarizadora; plataforma mobile no ar
Jan 2023
Primeiro grande investidor; executiva de banco traz carteira de R$ 8 mi
Jun 2024
R$ 1 bilhão em originação com 34 funcionários
Set 2024
Primeiro RWA tokenizado de FGTS: R$ 50 mi com Mercado Bitcoin
Mai 2025
Entrada no Crédito do Trabalhador com motor de crédito próprio
2026
R$ 2 bi em originação, R$ 1,8 bi sob gestão, rating AAA Moody’s
Fonte: Grupo Prata / entrevista exclusiva ao Let’s Money
Três sócios e uma ineficiência de mercado
Eduardo Mauro Prates, 42 anos, advogava há mais de uma década e tinha escritório próprio. Leonardo Guimarães era analista de sistemas com experiência em grandes organizações. Felipe Cristiano Ródio, engenheiro formado pela UFRGS, havia passado por Renault e Toyota. Os três tinham por volta de 36 anos e carreiras consolidadas quando decidiram fundar a empresa em plena pandemia.
O Prata Digital nasceu como correspondente bancário num mercado de crédito consignado estruturado em torno de grandes promotoras que concentravam a intermediação entre bancos e a rede de vendedores. Para um correspondente pequeno ou médio, o acesso direto às instituições financeiras era limitado.
“As grandes promotoras não nos abriram a porta. A única opção foi abrir a nossa para os pequenos e médios. Não foi estratégia, foi falta de opção”, disse Eduardo Mauro Prates, CEO do Grupo Prata.
A virada aconteceu em abril de 2022, quando a empresa assinou seu primeiro contrato com uma bancarizadora e começou a oferecer originação direta. A convergência do Banking as a Service com a chegada da antecipação do saque-aniversário do FGTS ao mercado privado criou a oportunidade. Um produto com risco próximo de zero, comissões elevadas e uma base potencial de21,5 milhões de trabalhadores que haviam aderido à modalidade.
A estratégia de go-to-market foi pouco convencional. Sem capital para marketing tradicional, os fundadores recrutaram youtubers de finanças pessoais para originar operações pela plataforma. “A gente não ia para a rua vender consignado. Buscamos youtubers que falavam sobre dinheiro e fizemos um time grande”, contou Prates. O volume, que começou em R$ 1 milhão por mês, escalou até atingir R$ 300 mil por dia ao final de 2022.
A empresa foi superavitária desde o primeiro dia. “Nesse mercado, se você cria uma empresa para vender, recebe no mesmo dia. Você só vai se endividar se quiser”, explicou o CEO. “A gente nunca quis ser o número 1 de venda. Queríamos ser excelência operacional.” Os sócios trabalhavam de madrugada, fins de semana e feriados. Eduardo atendia clientes finais. Leonardo desenvolvia a plataforma sozinho em horários alternativos. “Os anos de 2021 e 2022 foram pesados. Trabalhamos sábado, domingo, até 11 da noite”, afirmou Prates.
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Uma plataforma feita para quem está na rua
O primeiro pilar do Grupo Prata é a infraestrutura tecnológica. Toda a plataforma de originação foi construída internamente por Leonardo Guimarães e uma equipe de 10 engenheiros, equivalente a 25% do time total da empresa.
Desde a primeira versão, o sistema foi desenhado para funcionar no celular. Em 2022, as plataformas disponíveis no mercado exigiam computador e não haviam sido desenhadas para a originação de FGTS no varejo. “A gente viu que precisava de algo simples, feito para o vendedor que está na rua com o celular na mão”, afirmou Prates.
A plataforma reúne todo o ciclo operacional num único ambiente: originação, acompanhamento de propostas, relatórios financeiros e pagadoria. Hoje processa 65 mil propostas por mês, com tempo médio de aprovação de cinco minutos. Até novembro de 2025, quando asnovas regras do saque-aniversário reduziram o mercado, o volume chegava a 170 mil propostas mensais.
A pagadoria nasceu como resposta a uma dor conhecida do mercado: o pagamento de comissões no consignado costumava ser demorado e imprevisível. O Prata decidiu pagar em D1 e depois evoluiu para D0: se o vendedor formaliza um contrato até as 21h59, recebe o valor no mesmo dia. “A gente entendeu que confiança se constrói no financeiro. Se o vendedor sabe que vai receber no mesmo dia, ele prioriza a nossa plataforma”, disse Prates. O volume mensal processado pela pagadoria é de R$ 5 milhões.
O Grupo Prata é também o único do segmento a pagar cashback sobre notas fiscais emitidas pelos correspondentes, incentivando a formalização de uma cadeia em que esse processo ainda era um desafio. “A gente começou a pagar para o vendedor emitir nota fiscal. Só a gente faz isso até hoje”, afirmou Prates.
Desde maio de 2025, a empresa opera com motor de crédito proprietário para o Crédito do Trabalhador (CLT), oconsignado para trabalhadores do setor privado lançado pelo governo em março daquele ano. A aprovação combina análise jurídica automatizada do empregador, incluindo processos trabalhistas, certidões tributárias e faturamento mínimo, com regras de crédito desenvolvidas internamente. “Esse produto é complexo. Não é o FGTS, onde o risco era praticamente zero. Aqui construímos a esteira do zero, com dinheiro próprio. Quando o produto foi lançado, poucas empresas operavam o produto nos primeiros meses. Nós entramos em maio de 2025 e nunca saímos”, disse Prates.
De R$ 10 milhões a R$ 1,8 bilhão sob gestão
A estrutura de funding é o segundo pilar. O Grupo Prata opera com nove veículos de investimento próprios: quatro FIDCs e cinco debêntures, totalizando R$ 1,8 bilhão sob gestão. Os sócios fundadores investem pessoalmente nas cotas subordinadas, assumindo o primeiro nível de risco da operação.
A construção dessa estrutura foi gradual. Os primeiros investidores alocaram R$ 2 milhões e R$ 10 milhões em operações pontuais e tiveram bom retorno. Na virada de 2022 para 2023, um investidor de São Paulo ofereceu o que Eduardo chama de “cheque em branco”: se o Prata originasse R$ 1 bilhão, ele teria R$ 1 bilhão disponível. No mesmo período, a empresa contratou uma executiva vinda de um grande banco, que trouxe uma carteira de R$ 8 milhões no primeiro mês de casa. “Em janeiro de 2023, a gente começou a ganhar dinheiro de verdade”, afirmou Prates.
Dois dos veículos possuem rating AAA da Moody’s, classificação máxima. A empresa é auditada pela Grant Thornton, uma das seis maiores auditorias globais. “Para entrar em gestoras de primeiro escalão, você passa por uma diligência rigorosa. Olham balanço, caixa, extratos. Se tem qualquer inconsistência, questionam”, disse Yuri Temer, economista com passagens na Xp Asset e no Banco Xp e atual executivo do Grupo Prata.
Em setembro de 2024, o Prata deu um passo inédito ao estruturarR$ 50 milhões em tokens com o Mercado Bitcoin, no primeiro ativo tokenizado (RWA) lastreado em antecipação de saque-aniversário do FGTS. A operação, concluída em 45 dias, permitiu captar recursos de investidores pessoa física com ticket mínimo de R$ 100 e rendimento de CDI + 1,5%.
39 pessoas que operam como banco
O terceiro pilar é o time. O Grupo Prata opera com 39 pessoas no Prata Digital, a unidade originadora. Quando atingiu R$ 1 bilhão em originação, em junho de 2024, eram 34. O crescimento concentrado entre 2023 e meados de 2024 trouxe profissionais de grandes instituições: Yuri Temer, economista ex XP; Lucas Vasconcelos, tech leader com passagem pelo BTG; e Rochele, gerente comercial vinda do Safra.
“O Prata se apresenta no mercado de capitais com sistema próprio, tecnologia própria, no lucro real, auditoria global e rating AAA. Para entrar em Bancos de primeira linha, a casa precisa estar arrumada”, afirmou Temer.
A equipe estabilizou e novas contratações são direcionadas quase exclusivamente para tecnologia. O modelo é estritamente B2B: a empresa não compete com seus correspondentes na ponta, eliminando conflitos de interesse. “A gente dá acesso direto para promotores de todos os portes. São mais de 600 empresas credenciadas que hoje operam diretamente pela nossa plataforma”, disse Temer.
O que observar
O mercado de crédito consignado vive uma transição estrutural. As novas regras do saque-aniversário, em vigor desde novembro de 2025, comprimiram o volume de antecipações. Em paralelo, o Crédito do Trabalhadormovimentou R$ 117 bilhões em seu primeiro ano e alcançou mais de 20 milhões de contratos, abrindo uma nova fronteira que demanda motor de crédito sofisticado, funding estruturado e capacidade de absorver risco. Originadores que construíram esses três pilares de forma proprietária chegam a esse novo ciclo com vantagem competitiva. O Grupo Prata fez exatamente isso.
“O Prata é fruto de coragem, criatividade e persistência”, disse Prates.