Foto: Divulgação / Itaú
Foto: Divulgação / Itaú

As liquidações envolvendo o Banco Master e o Will Bank reacenderam um debate sensível no sistema financeiro brasileiro: o papel do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e a responsabilidade das plataformas na distribuição de produtos bancários. Para o Itaú Unibanco, o episódio expôs uma assimetria regulatória que precisa ser enfrentada.

Em entrevista concedida ao “Broadcast, do Estadão” durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, o CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho, afirmou que o banco nunca distribuiu CDBs do Banco Master porque os papéis não passaram pelos critérios técnicos internos da instituição. A declaração ocorre em meio a um evento de grande materialidade, estimado em cerca de R$ 55 bilhões, somando os impactos do Master e do Will Bank.

Critérios técnicos e curadoria do Itaú

Segundo Maluhy, a garantia do FGC não pode ser o único fator a orientar a oferta de produtos ao investidor. Na avaliação do executivo, bancos precisam analisar modelo de negócio, sustentabilidade financeira e coerência das taxas oferecidas antes de colocar um papel na prateleira.

O CEO do Itaú destacou que, ao longo dos últimos anos, o mercado de captação e investimentos no Brasil se sofisticou rapidamente, enquanto a regulação avançou em ritmo mais lento. Esse descompasso, segundo ele, abriu espaço para a distribuição de ativos com taxas fora de mercado, sustentados principalmente pela percepção de segurança associada ao FGC.

Assimetria entre bancos e distribuidores

Na leitura do Itaú, há um desequilíbrio claro na cadeia de incentivos. Plataformas e distribuidores, que contribuem pouco para o fundo, capturam comissões relevantes ao vender CDBs e outros produtos de terceiros. Quando ocorre um problema, no entanto, o custo da recomposição do FGC recai majoritariamente sobre os grandes bancos, que concentram a base de depósitos.

Para Maluhy, esse modelo pode viabilizar negócios insustentáveis no médio e longo prazo, especialmente quando o crescimento é estimulado exclusivamente pela garantia do fundo, e não pela solidez do emissor. Por isso, o executivo defende regras mais homogêneas para todos os participantes do mercado e uma curadoria mais rigorosa na distribuição.

Evento relevante, mas não sistêmico

Apesar da dimensão financeira do caso, o Itaú não vê risco de contágio sistêmico. Na avaliação do banco, trata-se de um evento relevante, porém isolado, sem indícios de uma crise mais ampla no sistema financeiro. O cenário de crédito para 2026, segundo Maluhy, não aponta para deterioração profunda, embora alguns segmentos específicos apresentem aumento de inadimplência em um ambiente de juros reais elevados.

O executivo também reforçou a importância da autonomia e da capacitação técnica do Banco Central do Brasil, destacando que a credibilidade do regulador é um dos principais ativos institucionais do país. Segundo ele, investidores internacionais demonstraram forte interesse em entender o episódio, mas mantêm confiança na solidez do sistema financeiro brasileiro.

O caso do Master, na visão do Itaú, deixa um recado claro: inovação financeira sem atualização regulatória adequada tende a gerar excessos. O desafio agora é ajustar as regras do FGC e os incentivos da distribuição para evitar novos eventos de grande impacto, sem elevar o custo do crédito ou penalizar o consumidor final.

Gabriel Rios

Editor-chefe

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.