A fintech Kesh captou R$ 550 milhões em uma rodada que combina equity e um FIDC próprio, liderada pelo Grupo Leste. O dinheiro vai bancar a expansão do “cashback de juros”, modelo em que o trabalhador toma crédito e recebe de volta o valor dos juros em poder de compra. A meta é chegar a 1 milhão de usuários em três anos.
A rodada e a operação da Kesh em números
| Indicador |
Número |
| Rodada |
R$ 550 mi (equity + FIDC) |
| Meta de usuários |
1 milhão em 3 anos |
| Base ativa |
40 mil usuários |
| Crédito concedido |
+R$ 30 mi desde abr/2025 |
| Tíquete médio |
~R$ 650 |
Dados da rodada e da operação da Kesh. Fonte: NeoFeed
Como funciona o cashback de juros
Em operação desde abril de 2025, a Kesh é uma fintech B2B2C que cuida da folha de pagamento das empresas e oferece crédito aos funcionários no formato de antecipação do salário relativo aos dias trabalhados. O diferencial está no que acontece depois: em vez de reter os juros do empréstimo, a fintech devolve esse valor como cashback para gastar em uma rede de mais de 150 parceiros, entre eles Bob’s, Vivo, TIM, Uber e Netshoes. A receita vem das comissões pagas por esses parceiros e da gestão da folha.
“O trabalhador paga os juros, mas recebe esse valor de volta em poder de compra para gastos do dia a dia”, disse Marcelo Ramos, fundador e CEO da Kesh. O público é majoritariamente de baixa renda: cerca de 80% dos tomadores recebem até cinco salários mínimos, e o tíquete médio gira em torno de R$ 650. Ramos posiciona o produto como saída para quem já esgotou outras linhas, num momento em que o crédito pessoal sem garantia chega a cobrar 142% ao ano. “A principal dor que resolvemos é daquele trabalhador que já está no limite do consignado e precisa de R$ 500 ou R$ 600 para uma emergência”, afirmou.
O carimbo institucional da rodada
Mais do que capital, a rodada funcionou como aval de mercado para uma tese heterodoxa. “Nosso maior desafio hoje é a credibilidade”, disse Ramos. Além do Grupo Leste, casa de Emmanuel Hermann com mais de R$ 22,3 bilhões sob gestão, entraram a BR Angels e um grupo de sócios da Across Capital. Parte dos recursos irá para o FIDC da empresa, na esteira de um movimento em que fintechs brasileiras vêm usando FIDCs para financiar carteiras de crédito.
Investidor da Kesh desde o início, Hermann conhece Ramos desde a Vee Benefícios, startup de benefícios flexíveis incorporada pela francesa Swile em 2021. “Achei uma estrutura bastante criativa e que gera valor para o usuário”, disse ele. O aporte também chega num cenário regulatório mais apertado para o crédito ao trabalhador, em que o teto de juros pode afastar bancos do consignado.
O que observar
O modelo prende a economia do cliente à rede de parceiros: o alívio só se concretiza se o trabalhador consumir onde o cashback vale. Vale acompanhar se essa mecânica se sustenta conforme a base cresce de dezenas de milhares para o patamar de um milhão, e se a rede de estabelecimentos acompanha a expansão sem diluir o benefício. A concentração em tomadores de baixa renda que já esgotaram outras linhas também coloca a inadimplência e a capacidade de pagamento no centro do teste.
Há ainda a variável regulatória. Enquanto o crédito é atrelado à conta que recebe o salário, o risco tende a ser mais controlado. Mas fintechs de folha operam na mesma vizinhança do consignado, e mudanças de teto de juros ou de regras de desconto em folha podem redesenhar a margem de quem financia essas carteiras via FIDC. A pergunta é se a receita de comissões dos parceiros basta para segurar a conta quando o custo de funding sobe.
Fontes: NeoFeed • Money Report • Let’s Money