Samuel L. Jackson, "garoto propaganda" do Capital One, com o cartão da Brex | Foto: Startups/divulgação
Samuel L. Jackson, "garoto propaganda" do Capital One, com o cartão da Brex | Foto: Startups/divulgação

A Capital One deixou claro, durante a divulgação de seus resultados do quarto trimestre, que a aquisição da Brex vai muito além de ampliar o portfólio de cartões. Segundo a companhia, o movimento posiciona o banco para disputar um mercado estimado em US$ 2 trilhões anuais em pagamentos empresariais.

Na teleconferência com analistas, o CEO Richard Fairbank enquadrou o negócio como parte de uma estratégia de longo prazo. Para ele, os pagamentos sempre foram o vetor central de transformação dos serviços financeiros, e a Brex acelera um caminho que o banco já vinha construindo.

A aquisição, avaliada em US$ 5,2 bilhões, integra à Capital One a plataforma da Brex, que combina cartões corporativos, software de gestão de despesas e serviços bancários. O objetivo é atacar um problema estrutural: a fragmentação dos fluxos de contas a pagar, aprovações, controle de gastos e conciliação financeira nas empresas.

Segundo Fairbank, apesar da digitalização, grande parte dos pagamentos corporativos ainda depende de processos manuais, sistemas desconectados e soluções parciais oferecidas por bancos ou softwares isolados. A tese é que a Brex entrega uma camada operacional unificada, enquanto a Capital One aporta escala, funding e distribuição, de acordo com o “PYMNTS“.

Capital One mira maior profundidade

Historicamente forte em cartões para pequenas empresas, sobretudo no modelo de responsabilidade pessoal, a Capital One passa a atuar com mais profundidade em cartões de responsabilidade corporativa e pagamentos empresariais mais amplos. Esse mercado, segundo Fairbank, cresce cerca de 9% ao ano, impulsionado pela migração de cheques e dinheiro para soluções digitais.

A tecnologia da Brex permite ao banco alcançar desde startups até grandes corporações globais sem reconstruir toda a infraestrutura internamente. Ainda assim, o mercado reagiu com cautela: as ações da Capital One recuaram cerca de 3% no after-market após o anúncio, refletindo preocupações de curto prazo com diluição de resultados.

Crédito estável, consumo resiliente

Paralelamente à estratégia de crescimento, a administração reforçou que os fundamentos do negócio seguem sólidos. Indicadores de crédito continuam melhorando, com queda nas perdas em cartões e inadimplência dentro dos padrões sazonais. O volume de compras com cartões cresceu 6,2%, desconsiderando o impacto da Discover.

Fairbank descreveu o cenário como de estabilidade, não exuberância. Emprego forte e crescimento real dos salários sustentam o consumo, embora inflação acumulada e juros elevados ainda pressionem parte das famílias. O banco espera um impulso pontual com reembolsos de impostos no início de 2026, mas sem efeitos estruturais duradouros.

O CEO também aproveitou a call para criticar propostas de controle de preços em cartões de crédito e mudanças na estrutura de intercâmbio. Segundo ele, medidas desse tipo podem reduzir o acesso ao crédito de forma generalizada, com efeitos em cadeia sobre consumo, varejo e serviços, setores que respondem por cerca de 70% do PIB dos EUA.

Brex como alavanca de longo prazo

A Capital One afirmou que a Brex será integrada às demais iniciativas do grupo, incluindo a recente aquisição da Discover. Embora o negócio pressione os lucros no curto prazo, a companhia vê a fintech como base para acelerar a próxima fase do banco no segmento empresarial.

Para Fairbank, a lógica é simples: enquanto a Capital One oferece balanço, escala e alcance, a Brex entrega a infraestrutura que faltava para transformar pagamentos corporativos em uma plataforma central de crescimento.

Gabriel Rios

Editor-chefe

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.