
A Mastercard deu um passo relevante na integração entre inteligência artificial e meios de pagamento ao concluir, na Austrália, suas primeiras transações com pagamentos realizados por agentes de IA. O piloto contou com a participação do Commonwealth Bank of Australia (CBA) e do Westpac, dois dos maiores bancos do país.
A iniciativa utiliza a tecnologia Agent Pay, apresentada pela Mastercard nos Estados Unidos em 2025, que permite que consumidores autorizem um agente de IA a pesquisar, selecionar e concluir compras em seu nome. Diferentemente de automações tradicionais, o modelo foi desenhado para operar de forma transparente dentro do ecossistema de cartões, com consentimento explícito do titular.
No primeiro teste, um cartão de débito emitido pelo CBA foi utilizado para a compra de ingressos de cinema na rede Event Cinemas. Em seguida, um cartão de crédito do Westpac foi usado para realizar uma reserva de hospedagem em Thredbo, destino turístico australiano. Em ambos os casos, a transação foi reconhecida por todos os participantes do fluxo, emissor, adquirente e comerciante, como tendo sido iniciada por um agente.
Agentes entram no fluxo de pagamentos
Um dos pontos centrais do piloto foi a visibilidade do agente dentro da transação. Segundo a Mastercard, todos os elos do sistema conseguiram identificar que a compra foi executada por uma IA, preservando princípios de rastreabilidade, governança e autorização, elementos críticos para que pagamentos com agentes possam escalar.
As transações foram processadas com o uso do modelo de linguagem soberana Matilda, desenvolvido pela Maincode, reforçando a preocupação com controle local de dados e conformidade regulatória. A escolha do modelo dialoga com um tema cada vez mais sensível no setor financeiro: a soberania tecnológica em aplicações de IA.
“O comércio com agentes representa uma das mudanças mais profundas no comportamento do consumidor que vimos em décadas”, afirmou Paul Monnington, presidente da Mastercard, de acordo com o “Finextra“. Segundo ele, o desafio não está apenas na tecnologia, mas em garantir que esse novo modelo preserve os padrões de confiança e segurança esperados dos pagamentos com cartão.
Do comando de voz ao ato de pagar
Na prática, o projeto antecipa um cenário em que pagamentos deixam de ser uma ação direta do usuário e passam a ser delegados a agentes inteligentes, capazes de executar tarefas completas, da busca à liquidação financeira. Esse movimento tem implicações relevantes para bancos, bandeiras, adquirentes e varejistas.
Para o setor financeiro, o avanço dos agentes levanta questões sobre responsabilidade, consentimento, limites de gasto e prevenção a fraudes, além de exigir adaptações nos sistemas de autorização e monitoramento. Ao manter os pagamentos dentro da infraestrutura tradicional de cartões, a Mastercard sinaliza que pretende liderar essa transição sem romper com o modelo atual.
O piloto australiano também sugere que os pagamentos com agentes devem ganhar tração primeiro em casos de uso específicos, como entretenimento e viagens, antes de avançar para compras recorrentes ou de maior complexidade.
Mais do que um teste pontual, o experimento indica que a indústria de pagamentos já se prepara para um próximo ciclo: aquele em que IA não apenas recomenda, mas executa transações financeiras, redefinindo a experiência de consumo e o papel dos intermediários.