Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil
Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil

O avanço do Pix transformou a forma como o dinheiro circula no Brasil, mas também escancarou um dos principais dilemas da digitalização financeira: a escalada das fraudes. Mesmo com novos mecanismos de proteção e maior atenção do regulador, os golpes seguem em patamar elevado e pressionam consumidores, empresas e o próprio sistema financeiro.

Dados divulgados pelo Banco Central do Brasil ao longo de 2024 apontam 4,7 milhões de notificações de fraude envolvendo o Pix, com perdas estimadas em R$ 6,5 bilhões. O volume médio mensal supera 390 mil ocorrências, um número que reforça que o pagamento instantâneo se tornou não apenas onipresente, mas também um alvo prioritário de criminosos.

Em 2025, o cenário seguiu desafiador. Levantamentos setoriais e dados parciais indicam dezenas de milhões de registros, tentativas e comunicações de golpes relacionados ao Pix ao longo do ano, envolvendo práticas como engenharia social, falsos contatos bancários, golpes de estorno e uso de contas de laranjas, de acordo com informações do “Valor Econômico“.

O Pix funciona como infraestrutura. A fragilidade aparece na ponta, onde comportamento humano, pressa e confiança são explorados por fraudadores. Segundo especialistas do setor, a maioria das ocorrências nasce de situações artificiais de urgência, como pedidos inesperados, contatos fora dos canais oficiais ou solicitações de devolução que simulam erros operacionais. Em muitos casos, a transação é autorizada pela própria vítima, o que dificulta a reversão.

MED ajuda, mas não resolve sozinho

O Mecanismo Especial de Devolução (MED) foi criado justamente para ampliar as chances de recuperação de valores em casos de fraude. Ainda assim, o índice de ressarcimento segue limitado diante do volume total de ocorrências. Na prática, a maior parte das vítimas não consegue reaver integralmente os recursos transferidos.

Esse descompasso reforça uma mudança de mentalidade no ecossistema: prevenção passou a ser mais relevante do que remediação. A combinação entre tecnologia antifraude, monitoramento em tempo real e educação financeira do usuário se tornou essencial para reduzir perdas.

Grupos com menor familiaridade digital, idosos e pequenos empreendedores aparecem com frequência entre os mais afetados. Além do impacto financeiro, os golpes comprometem a confiança nos meios digitais, hoje indispensáveis para o funcionamento da economia.

Mais Pix, mais responsabilidade

O debate ganha ainda mais peso em um momento em que o Pix avança para novas frentes, como pagamentos recorrentes, automáticos e integrados a serviços financeiros mais complexos. Quanto maior o alcance do sistema, maior também a superfície de risco.

A mensagem que começa a se consolidar é direta: no Pix, segurança deixou de ser diferencial competitivo. Passou a ser condição básica de funcionamento. Sem isso, a confiança, principal ativo do pagamento instantâneo, fica sob ameaça.

Gabriel Rios

Editor-chefe

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.