Foto: Divulgação
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O Pix deixou de ser apenas um fenômeno doméstico. Aos poucos, o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos começa a ser testado como infraestrutura exportável, capaz de sustentar fluxos internacionais de dinheiro, agora combinado com stablecoins. É nesse movimento que se insere a chegada da Due ao Brasil, com um aporte de US$ 7,3 milhões e uma estratégia clara: usar a ferramenta como base para pagamentos transfronteiriços mais rápidos, baratos e programáveis.

A aposta da fintech britânica parte de uma leitura simples, mas poderosa. Se o Pix já provou, em escala, que é possível liquidar pagamentos em segundos dentro de um país continental, por que não conectá-lo a trilhos globais usando stablecoins como camada de liquidação internacional?

Pix como infraestrutura, não apenas produto

Desde seu lançamento, em 2020, o Pix se consolidou como o principal meio de pagamento no Brasil, com adoção massiva por pessoas físicas, empresas e governo. O que começa a mudar agora é a forma como o mercado enxerga o sistema: menos como um produto local e mais como infraestrutura financeira.

Ao integrar o Pix com stablecoins, ativos digitais lastreados em moedas fiduciárias, a Due busca resolver um dos gargalos históricos dos pagamentos internacionais: custo elevado, múltiplos intermediários e liquidação lenta. Na prática, o Pix cuida da ponta local, enquanto as stablecoins fazem o papel de ponte entre jurisdições.

Esse modelo reduz fricções operacionais e abre espaço para uma nova geração de pagamentos cross-border, especialmente em fluxos recorrentes e de menor valor, onde o sistema tradicional ainda é ineficiente.

Stablecoins entram no jogo do Pix

As stablecoins vêm ganhando espaço justamente por oferecerem previsibilidade de valor combinada com liquidação quase instantânea. Para empresas e indivíduos que operam entre países, isso significa menos exposição cambial, menos taxas e mais controle sobre o fluxo de caixa.

A proposta da Due é usar esse trilho para conectar o Pix a outros mercados, transformando o Brasil em um laboratório regulatório e operacional para testar o que pode vir a ser, no futuro, uma versão internacionalizada do sistema.

Não por acaso, o país tem sido observado de perto por reguladores, bancos centrais e big techs. O sucesso doméstico do Pix criou um ativo raro: uma infraestrutura pública, escalável e amplamente aceita, algo que poucos países conseguiram construir.

O impacto para empresas e PMEs

Embora o discurso sobre internacionalização do Pix soe abstrato, os efeitos práticos são bastante concretos. Pequenas e médias empresas, que hoje sofrem com custos elevados para pagar fornecedores no exterior ou receber de clientes internacionais, tendem a ser algumas das maiores beneficiadas.

Ao reduzir o tempo de liquidação e eliminar intermediários, o modelo Pix + stablecoins pode destravar novos fluxos de comércio, especialmente em economias emergentes, onde o acesso a serviços financeiros globais ainda é limitado.

Um sinal do que vem pela frente

A entrada da Due no Brasil não é um caso isolado. Ela se soma a um movimento mais amplo de fintechs, bancos e redes globais que começam a testar novas arquiteturas de pagamento, menos dependentes de sistemas criados nos anos 1970 e mais alinhadas à lógica digital.

Se o experimento brasileiro funcionar, o Pix pode deixar de ser apenas um case de sucesso local e passar a ocupar um papel mais ambicioso: o de referência global em pagamentos instantâneos, agora conectado ao universo das stablecoins.

Mais do que uma aposta em tecnologia, trata-se de uma disputa silenciosa por quem vai definir os trilhos financeiros da próxima década. E, pela primeira vez, o Brasil não está apenas acompanhando, está sendo observado.

Gabriel Rios

Editor-chefe

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.