
Este episódio é oferecido pela Jumpstart
Pagamentos internacionais ainda são sinônimo de prazos longos, tarifas altas e invisibilidade operacional para bancos, fintechs e empresas. Foi nessa lacuna que José de Carvalho Júnior, fundador da Muevy, enxergou uma oportunidade de mudar as regras do jogo: conectar os trilhos existentes (como Visa Direct e Mastercard Move) às novas possibilidades abertas pelo Open Finance. O objetivo? permitir que instituições financeiras realizem pagamentos cross‑border mais rápidos, baratos e seguros, sem carregar saldos nem gerenciar custódia de clientes.
“No final do dia, quem está pagando quer que seja rápido, seguro e barato. E aí surgiu um pouco da ideia de falar: ‘peraí, tem um problema aqui que a gente pode resolver’ que é o pagamento cross‑border, para mandar dinheiro para fora de forma mais simples e eficiente”, explica Júnior.
De tecnologia de câmbio à infraestrutura de pagamentos
A trajetória de Júnior no setor financeiro começou em 2010–2011, quando trabalhou na Confiança, desenvolvendo tecnologia para o primeiro banco de câmbio do Brasil e lidando com cartões de viagem multimoeda, algo que o conectou desde cedo aos desafios de movimentar valor entre moedas e fronteiras.
Esse aprendizado pavimentou o caminho para a Brasil Pré‑Pagos (BPP), fundada por ele para “tropicalizar” cartões pré‑pagos no Brasil e torná‑los úteis em contextos corporativos e pessoais. A BPP foi uma das primeiras instituições de pagamento autorizadas no país (6ª ou 7ª, em 2013), e teve papel pioneiro na adoção do Pix como participante indireto, superando ceticismo sobre sua viabilidade.
“A BPP virou plataforma para muita gente lançar produto… você não precisava ter conta nem APIs complexas, era uma forma de democratizar pagamentos antes do Pix”, lembra Júnior.
A BPP também foi protagonista como fornecedora de tecnologia da Visa nas Olimpíadas de 2016, implementando pulseiras, relógios e cartões virtuais de pagamento para bilheteria, uma vitrine de tecnologia e experiência digital em alto volume.
O problema dos pagamentos cross‑border
Apesar das melhorias regionais com o Pix e Open Finance, o ambiente internacional ainda é um terreno problemático:
- Lentidão: operações podem levar dias ou semanas para liquidar.
- Custo e opacidade: tarifas variadas e pouca visibilidade.
- Intermediários: múltiplos nós na cadeia replicam custo e risco.
- Experiência do usuário: complexo, incerto e fragmentado.
Soluções como criptomoedas trouxeram alternativas de liquidação mais rápida, mas ainda enfrentam volatilidade, complexidade de uso e barreiras de conversão fiduciária para a maioria dos usuários.
Foi essa junção de frustração do cliente final com a insuficiência das soluções existentes que motivou a criação da Muevy.
O que a Muevy entrega
A Muevy opera como ITP (Iniciador de Transação de Pagamentos), uma infraestrutura que orquestra a transação sem deter o dinheiro do cliente, reduzindo a necessidade de custódia, compliance e custo operacional pesado. Isso abre portas para integrar fluxos internacionais de maneira mais leve e ágil.
A grande entrega da empresa é uma plataforma multi‑trilho para pagamentos cross‑border que combina:
- Visa Direct e Mastercard Move: uso das redes de bandeiras para enviar dinheiro direto para cartões ou contas no exterior (exceto EUA, onde há restrições).
- Liquidação quase em segundos: usando fast funds, o destinatário recebe o valor de forma imediata ou com delay mínimo.
- Integração acelerada: clientes conseguem estar em produção em poucos meses, em contraste com anos de desenvolvimento tradicional.
- Conciliação detalhada: transparência completa do fluxo para instituições usuárias.

Um exemplo prático dessa capacidade é o M‑Direct, uma solução que permite enviar um PIX no Brasil e o dinheiro chegar convertido em euros no cartão do destinatário no exterior, com processo simples e rastreável.
“Você consegue mandar dinheiro para qualquer cartão Visa ou Mastercard fora do Brasil e ver a liquidação quase em tempo real. Quando isso acontece, o usuário fica mesmo surpreso com a rapidez”, descreve Júnior.
A oferta da Muevy atende principalmente instituições financeiras, corretoras de câmbio, adquirentes e gateways de pagamento, players que precisam automatizar grandes volumes de operações cross‑border ou oferecer pagamento internacional como serviço.
De onde vem a demanda e quem mais pode se beneficiar
Embora a Muevy não opere com e‑commerce diretamente, muitos dos volumes de iniciação vêm via gateways de pagamento que atendem múltiplos segmentos no mesmo integrador. Isso reflete a necessidade latente de simplificar fluxos de pagamento:
“A gente não tem um e‑commerce cliente direto ainda, mas trabalha com adquirentes e gateways que têm e‑commerce como parte da base. Eles trazem o volume para nós, e nós fazemos o back‑end acontecer.”
Além de e‑commerce, instituições que pagam fornecedores internacionais, entidades com operações transnacionais e plataformas B2B sem presença física no exterior se beneficiam da plataforma.
Desafios que ainda permanecem
Mesmo com avanços, alguns pontos continuam sensíveis:
Informação do cartão de destino:
Enviar para um cartão exige que o destinatário informe o número completo, um dado que bandeiras sempre recomendaram que não fosse divulgado.
“Quando você pede o número do cartão, o cliente até estranha… mas quando dá certo, a operação acontece em segundos,” diz Júnior.
Stablecoins e blockchain:
A empresa investiga o uso de stablecoins para reduzir custos e facilitar micro‑pagamentos internacionais, mas esbarra em barreiras de usabilidade, conhecimento de rede e infraestrutura de conversão fiduciária no destino, muitas vezes exigindo parceiros ou licenças locais.
Regulação local:
Para que stablecoins façam sentido em todos os destinos, é preciso que o recebedor tenha uma estrutura regulatória e operacional para converter a stablecoin em moeda local, algo que nem todos os mercados oferecem hoje.
Onde a Muevy quer chegar
Para Júnior, o futuro dos pagamentos envolve experiências imperceptíveis, transações que acontecem sem que o usuário precise pensar em “pagar”.
“Pagamento no futuro é não ser um pagamento… como no Uber, você quase não percebe que aconteceu, e isso vale também para cross‑border.”
Ele também vislumbra oportunidades em micropagamentos, usando protocolos como X4402 para permitir transações de baixo valor com custo quase zero, uma evolução natural para comércio digital, conteúdos e serviços que hoje dependem de arranjos caros para valores pequenos.
No roadmap da empresa também está o uso mais profundo de Open Finance para aprimorar cash‑in automático, melhorando a experiência de débito e consentimento de saldo, e explorar stablecoins quando houver maturidade de mercado e regulamentação clara para uso de cripto como meio de troca.
Por que isso importa para o setor financeiro
Para tesoureiros, head de produtos, CTOs e gestores de instituições financeiras, a perspectiva de um modelo cross‑border mais rápido, transparente e barato abre uma nova frente de competição:
- Redução de custos e intermediários
- Integração com Open Finance para user experience melhorada
- Possibilidade de modelos de serviços embutidos e monetizados via APIs
- Capilaridade global sem necessidade de presença física em cada mercado
A Muevy se posiciona como parceiro estratégico para todo player que precisa oferecer pagamentos internacionais como parte da jornada do cliente, com mais eficiência e menos atritos.