Murilo Rabusky, fundador e Diretor de Negócios da Lina, e Beatriz Saito, Gerente de Produtos | Foto: Abner Garcia / Let's Money
Murilo Rabusky, fundador e Diretor de Negócios da Lina, e Beatriz Saito, Gerente de Produtos | Foto: Abner Garcia / Let's Money

No mais novo episódio do Let’s Money Podcast, o apresentador Gabriel Pereira conversou com Murilo Rabusky, fundador e Diretor de Negócios da Lina, e Beatriz Saito, Gerente de Produtos, sobre a evolução da empresa, os desafios do mercado e como o Tutor traduz dados em insights que ajudam usuários a entender melhor suas finanças com foco em transparência, personalização e impacto real no controle financeiro.

“A infraestrutura sozinha não gera valor se o usuário não percebe um benefício tangível. O que estamos fazendo com o Tutor é mostrar que o Open Finance pode ir além de tecnologia, ele pode transformar a vida financeira das pessoas”, afirma Rabusky.

A Lina nasceu em 2020 como provedora de infraestrutura para o Open Finance, atuando nos primeiros anos da iniciativa com transmissão, recepção de dados e iniciação de pagamentos. Com o tempo, percebeu‑se que, apesar da evolução rápida da infraestrutura, havia uma lacuna no que realmente chegava ao usuário final.

Para ganhar autonomia e flexibilidade para construir produtos com impacto direto no cliente, a Lina se homologou como ITP (Instituição de Pagamento) autorizada pelo Banco Central. Esse movimento foi estratégico, tirando a empresa da camada puramente técnica e colocando‑a na frente de criação de valor:

“A gente ouviu por muito tempo: ‘Cadê os casos de uso?’ E, hoje, estamos vivendo esse momento, onde queremos transformar a infraestrutura que construímos em oportunidades de negócio reais para as instituições”, diz Murilo.

Beatriz complementa: “Do ponto de vista de produto, a evolução foi entender que não bastava prover tecnologia, era preciso traduzir isso em experiências que realmente engajassem o usuário final e que facilitassem decisões financeiras do dia a dia.”

O desafio da educação financeira no Brasil

O Brasil enfrenta números preocupantes em termos de educação financeira. De acordo com pesquisas internas da Lina:

  • 71% dos brasileiros acreditam que a tecnologia pode ajudar na educação financeira,
  • mas apenas 19% usam ferramentas de gestão financeira,
  • enquanto 48% ainda controlam seus gastos manualmente (em planilhas ou anotações).

Além disso, mais de 70% da população está endividada, e muitos não têm clareza sobre para onde o dinheiro está indo.

Murilo Rabusky, fundador e Diretor de Negócios da Lina | Foto: Abner Garcia / Let’s Money

“Muita gente usa o app do banco todos os dias, mas não tem uma ideia clara de seus padrões de gasto ou como priorizar decisões como poupança, crédito ou consumo. Isso revela uma lacuna entre dados disponíveis e consciência financeira”, comenta Murilo.

Beatriz reforça que uma das principais dificuldades é a interpretação e o uso prático dos dados: sem contextualização e recomendações personalizadas, o usuário tende a ignorar informações valiosas.

Tutor da Lina

Foi nesse cenário que nasceu o Tutor, desenvolvido no âmbito do Lift Lab, programa de inovação do Banco Central em parceria com a Fenasbac. A missão do Tutor é simples, mas ambiciosa: usar dados do Open Finance e inteligência artificial para gerar insights financeiros personalizados, em linguagem natural e aplicáveis à vida real do usuário.

A ferramenta funciona como uma espécie de assistente conversacional, muito parecido com um chat de mensagens onde o usuário pode conectar suas contas e começar a receber respostas contextualizadas sobre sua realidade financeira.

O diferencial está em sua arquitetura de “agentes especializados”, que combinam análise de dados com princípios de economia comportamental:

  • Economista: visão macroeconômica e contexto mais amplo.
  • Gerente de Conta: foco no fluxo de caixa e gestão cotidiana.
  • Assessor de Investimentos: caminhos para poupança e patrimônio.
  • Advisor (Ciências Comportamentais): recomendações baseadas em hábitos e comportamento.
  • Crédito: análise de perfil de crédito e oportunidades de melhora.

Esses agentes permitem que as recomendações sejam adaptadas à situação financeira do usuário, seja ele financeiramente saudável, em alerta ou em situação crítica, evitando conselhos genéricos.

“Uma coisa que percebemos é que o primeiro passo muitas vezes é simplesmente ter consciência. Perguntas simples como ‘Quanto eu gasto com delivery?’ já revelam coisas que o usuário não sabe e essa consciência já gera valor”, diz Murilo.

Desenvolvimento e cuidados com inteligência artificial

A Lina entrou nesse projeto com ampla experiência em dados, mas a integração com IA trouxe desafios adicionais: como garantir que as recomendações fossem relevantes, sensíveis e alinhadas à realidade das pessoas?

A resposta foi um processo rigoroso de treinamento e testes, os chamados evals, usando tanto bases sintéticas quanto dados reais via Open Finance, além de validação interna e externa com feedback humano. Isso garantiu que as respostas fossem coerentes, contextualizadas e úteis.

“A gente testava, via feedback se a recomendação fazia sentido ou não, ajustava e recomeçava. Só depois de garantirmos consistência é que consideramos a solução pronta para uso”, comenta Beatriz.

Estratégia de mercado

O Tutor não foi concebido como um produto B2C tradicional, mas sim como uma ferramenta B2B2C, isto é, uma solução que bancos, fintechs e plataformas de gestão financeira podem incorporar para oferecer valor agregado aos seus próprios clientes.

Esse posicionamento ajuda as instituições a se diferenciarem em um mercado onde serviços como pagamentos e crédito são cada vez mais commoditizados. A capacidade de fornecer educação financeira contextual, personalizada e acessível é vista como um diferencial competitivo.

“Muitos bancos já oferecem gráficos ou dashboards, mas isso muitas vezes não engaja o usuário. O Tutor traz recomendações simples, conversacionais e acessíveis, exatamente o que o usuário da vida real precisa”, afirma Beatriz.

Beatriz Saito, Gerente de Produtos da Lina | Foto: Abner Garcia / Let’s Money

Essa abordagem também está alinhada com a Resolução nº 8/2023 do Banco Central, que incentiva instituições a adotarem iniciativas de educação financeira em seus canais.

Visão da Lina para o futuro

Além do Tutor, a Lina trabalha em outras frentes, integrando IA e dados para novos produtos:

  • Plataforma de dados: com soluções de PFM, análise de crédito e outros insights acionáveis.
  • PIX Manager: uma plataforma para gestão de pagamentos via PIX Automático, com visão de contratos, fluxo de pagamentos e possibilidade de integrar funcionalidades como Pix Biometria.

Beatriz destaca que o trabalho com agentes de IA também vem sendo expandido para análise de crédito, explorando como os dados podem enriquecer modelos existentes e apoiar decisões mais assertivas.

Educação financeira com impacto real

Para Murilo e Beatriz, iniciativas como o Tutor são mais que produtos, são passos concretos para tornar o Open Finance útil para o usuário final, ajudando a criar consciência financeira, apoiar mudança de hábitos e combater o endividamento no Brasil.

“O Open Finance é uma base poderosa. Mas o valor real está em traduzir esses dados em ações que façam sentido para o usuário. É isso que estamos buscando com o Tutor”, conclui Murilo.

Com uma estratégia que combina tecnologia, dados e inteligência artificial, a Lina posiciona o Tutor como um acelerador para casos de uso concretos do Open Finance, traduzindo uma infraestrutura robusta em benefícios reais para milhões de brasileiros.

Gabriel Rios

Editor-chefe

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.