Foto: Abner Garcia / Let's Money
Foto: Abner Garcia / Let's Money

No episódio “O Estado do Open Finance com a Sensedia” do Let’s Money Podcast, Gabriel Pereira conversa com Natália Cruz, Head de Open Finance da Sensedia, sobre o relatório O Estado do Open Finance no Brasil e no Mundo — publicado em parceria entre a Sensedia e o Let’s Money no final de 2025. A discussão, além de apresentar números impressionantes e casos de uso reais, traça uma visão estratégica do estágio atual do Open Finance e os próximos passos para 2026 e além.

“A adoção do brasileiro do Open Finance está crescendo cada vez mais e a gente vê casos de uso cada vez mais sendo publicados. As pessoas estão confiando cada vez mais no ecossistema, porque sabem que vão receber algum benefício bastante claro e tem também o crescimento exponencial de pagamentos”, afirmou Natália Cruz.

Sensedia: da API Management à espinha dorsal do Open Finance

A Sensedia se consolidou como uma referência em soluções de integração e API Management, com foco em governança, multi‑gateway e arquitetura escalável. Embora a empresa já atuasse no universo de APIs antes da chegada do Open Banking/Finance no Brasil, foi entre 2018 e 2019, durante a consulta pública do Banco Central, que sua trajetória com o Open Finance ganhou ritmo, contribuindo com especificações de APIs, segurança e design.

O envolvimento da Sensedia não é apenas tecnológico, mas estratégico:

  • Participou de grupos de trabalho desde os estágios iniciais de definição das normas no Brasil;
  • Cocria soluções com clientes (incluindo bancos, fintechs e grandes plataformas);
  • Tem uma base de mais de 200 clientes, muitos dos quais instituições financeiras que evoluíram suas estratégias a partir da implantação de Open Finance.

O histórico da empresa está alinhado com o movimento de transformação digital: entender que APIs são infraestrutura crítica para dados e serviços financeiros é mais do que técnica, é estratégico.

Brasil em destaque

Uma das grandes conclusões do relatório é o nível de maturidade que o Brasil atingiu no Open Finance. Ao final de 2025, o ecossistema brasileiro contava com cerca de 128 milhões de consentimentos ativos, uma marca que reflete a confiança do consumidor e a relevância prática da iniciativa.

“A palavra que fecha 2025 e entra em 2026 é ROI. Como que a gente vai conseguir provar o valor que os dados capturados pelo Open Finance podem trazer e como pagar essa conta.”

Essa busca por retorno sobre investimento, seja via redução de churn, personalização de oferta, iniciação de pagamentos ou novos produtos de crédito, impõe uma evolução: o Open Finance deixou de ser compliance e passou a ser motor de estratégia de produto e experiência do cliente.

Um ponto claro no relatório é que empresas que contextualizam o uso de Open Finance na jornada do cliente (por exemplo, no momento de pagamento ou de consulta de crédito) tendem a ter conversões muito mais altas do que aquelas que apenas “empurram” um banner genérico.

Brasil como referência global

A Sensedia não observa o desenvolvimento do Open Finance apenas no Brasil. A empresa tem sido procurada por instituições e reguladores de outros países, como Colômbia, Chile, Malásia e Nigéria, para compartilhar insights e boas práticas do modelo brasileiro.

Os desafios fora daqui variam conforme a maturidade tecnológica e cultural:

  • Screen scraping ainda é comum em muitas regiões, o que reduz segurança e interoperabilidade;
  • Alguns países tratam o Open Finance como iniciativa “market‑driven” antes de acelerar a regulação;
  • Preocupações com competição, perda de clientes e riscos de segurança freiam alguns players.

No Chile, por exemplo, a regulamentação já saiu em 2024, com meta de produção em 2027 e padrões que abrangem não apenas bancos, mas seguradoras. Já na Colômbia, a implementação será obrigatória para todas as instituições financeiras em um prazo de 18 meses.

O mercado norte‑americano enfrenta outro cenário: apesar da Section 1033 da lei Dodd‑Frank (que reconheceu o padrão FDX para Open Finance), a implementação ficou em suspensão após mudanças administrativas. Ainda assim, mercados como os EUA já empregam práticas semelhantes ao Open Banking, muitas vezes sem reconhecer explicitamente esse nome.

Foto: Abner Garcia / Let’s Money

Cases práticos: dados, pagamentos e parcerias

O relatório traz vários exemplos concretos de uso de Open Finance no Brasil, e a Sensedia tem participado diretamente de muitos desses projetos:

PagVeloz (Grupo Serasa)
Utiliza Open Finance para enriquecer seu score de crédito, alcançando mais de 1 milhão de consentimentos ativos de forma orgânica e se prepara para usar Iniciação de Pagamentos (JSR) a partir de 2026.

Banco Rendimento
Cliente sensedia desde antes do Open Finance, o banco integrou soluções como o Rendix (PIX internacional) e agora usa a iniciação de pagamentos para expandir o portfólio de produtos.

EBANX
Player global com foco em pagamentos remove fricções como “Pix em um clique” e explora a JSR para oferecer experiências mais simples ao cliente final.

AWS e Topaz (Parcerias estratégicas)
A parceria com a AWS permite trabalhar com grandes volumes de dados e explorar análises com apoio de IA aplicadas ao Open Finance. Já a colaboração com o grupo Stefanini/Topaz resultou em soluções como o Asset Pro, uma ferramenta de Wealth Management integrada à plataforma de Open Finance que oferece visão 360 do cliente.

Tendências que vão moldar 2026 e além

Natália destaca algumas apostas que devem ganhar força nos próximos anos:

Portabilidade de Crédito
Uma mudança regulatória que promete reduzir o tempo de processo de 9 para 3–5 dias, eliminando barreiras e evitando desistências, um grande ganho para experiência do cliente.

PIX Automático
Previsto para decolar em 2026, deve habilitar novos participantes e multiplicar casos de uso, inclusive no universo empresarial (PJ).

Jornadas Otimizadas
Com dados atualizados, será possível criar experiências mais integradas e inteligentes, como pagamentos baseados em saldo e perfil do usuário.

Open Finance PJ
Apesar de um gap ainda grande entre PF e PJ (por conta de consentimentos múltiplos e casos de uso), há espaço enorme a ser explorado, especialmente em soluções que diminuam a fricção para empresas.

Qualidade de Dados (IQD)
Uma métrica que ganhou peso regulatório e operacional, exigindo monitoramento rigoroso para garantir interoperabilidade e inteligência de dados no ecossistema.

Estratégia para ROI e efeito tangível

Uma questão que muitas lideranças enfrentam hoje é: por onde começar?

Natália explica que a primeira pergunta que a Sensedia faz a novos clientes é justamente: “Você já sabe qual caso de uso quer explorar?”
Ter essa direção clara, mesmo que seja apenas uma hipótese inicial, ajuda a construir um roadmap pragmático de investimento, integração e monetização. Para ela, sucesso no Open Finance está em colocar casos de uso na prática antes de tentar resolver tudo de uma vez.

Experiência do cliente como centro

Para encerrar, Natália resume a principal mensagem que o relatório e a experiência da Sensedia querem deixar para o mercado:

“O Open Finance é realmente uma forma de você conhecer melhor o seu cliente, de adotar estratégias novas para o seu negócio e, no fim do dia, garantir a melhor experiência para o seu cliente… não é um caminho fácil, mas é um caminho que tem muitos benefícios para serem colhidos lá no final”, disse Natália Cruz

Esse é o ponto que transforma o Open Finance de um projeto regulatório em um motor de negócios: entender o cliente em profundidade e entregar valor por meio de dados, APIs, orquestração de serviços e experiências contextuais.

Gabriel Rios

Editor-chefe

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, também realizou o curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Foi editor do BP Money e repórter do Bahia Notícias.