
Criada há cerca de um ano como um gateway de pagamentos via Pix, a Abacatepay decidiu mudar de rota ao identificar que o valor do negócio não estava na transação em si, cada vez mais comoditizada, mas nos dados financeiros gerados a partir dela.
“Percebemos que os modelos de pagamento viraram quase commodities. O diferencial real está nos dados”, afirma Daniel Lima, cofundador da Abacatepay. “Não à toa, as maiores empresas do mundo são aquelas que concentram mais dados”, diz, citando big techs como Amazon, Microsoft, Apple e Alphabet, segundo o “Startups“.
A partir dessa leitura, a startup reformulou completamente sua plataforma e passou a se posicionar como uma orquestradora de dados financeiros, mantendo o Pix como base, mas adicionando camadas de análise, automação e inteligência voltadas à gestão do negócio.
Do gateway ao “mini CFO virtual”
O principal lançamento da nova fase é um assistente financeiro com IA, descrito internamente como um “mini CFO virtual”. A ferramenta permite que usuários conversem com seus próprios dados financeiros, façam análises de fluxo de caixa, identifiquem inadimplência, exportem relatórios e acionem automações diretamente a partir das respostas.
Entre os usos possíveis estão listar clientes que deram churn, identificar compradores recorrentes ou ocasionais e até disparar ações automatizadas, como envio de cupons de desconto por e-mail. “O usuário pode perguntar o que quiser. Ele conversa com os dados”, resume Lima.
A plataforma também passou a oferecer uma área de plugins, na qual desenvolvedores podem criar e publicar funcionalidades próprias, ampliando o ecossistema da Abacatepay e reforçando a lógica de construção colaborativa.
Estratégia da fintech
Parte dessa estratégia tem origem fora do produto. Antes mesmo da startup, os fundadores já lideravam uma comunidade de desenvolvedores que hoje soma mais de 12 mil membros no Discord e 20 mil seguidores no Instagram.
“Construímos tudo em público. O feedback da comunidade orienta decisões de produto, e alguns usuários desenvolvem projetos open source para nós”, explica o executivo. A visão se consolidou após os fundadores passarem uma temporada no Vale do Silício, onde amadureceram o novo posicionamento da empresa.
Tração, capital e próximos passos
A Abacatepay havia projetado transacionar R$ 1 milhão no primeiro ano, mas encerrou o período com um volume 20 vezes maior. Em 2025, a fintech recebeu um aporte da Latitud, com valor não divulgado.
Para 2026, o plano é levantar uma rodada seed, acelerar o produto e iniciar a aceitação de pagamentos internacionais, adicionando dólar à operação. O foco inicial segue sendo Brasil e América Latina, com planos futuros para Estados Unidos e Sudeste Asiático.
Com a evolução da plataforma, o público-alvo também mudou. “Antes atendíamos desenvolvedores e pequenas empresas. Agora, passamos a atender clientes maiores, com faturamento anual de até R$ 20 milhões”, afirma Lima.
A Abacatepay segue operando como gateway de pagamentos, mas com uma ambição mais ampla: transformar dados financeiros em infraestrutura estratégica para tomada de decisão.