
O plano de abertura de capital da Agibank nos Estados Unidos enfrenta um revés relevante após o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) suspender a concessão de novos empréstimos consignados para aposentados, um dos principais pilares do modelo de negócios da fintech.
Segundo fontes ouvidas pela “Bloomberg News“, o Agibank planejava protocolar o pedido de IPO ainda neste mês, mas pode ser forçado a adiar a operação diante do impacto regulatório. A decisão do INSS, anunciada em dezembro, citou “graves irregularidades” na concessão do crédito com desconto em folha, modalidade central para a instituição.
Avaliado em R$ 9,3 bilhões em sua última rodada de investimentos, realizada em dezembro de 2024, o Agibank construiu sua estratégia focada no crédito consignado para aposentados e pensionistas, público com menor penetração bancária digital e alta recorrência de renda. A suspensão, portanto, atinge diretamente a previsibilidade de receitas e o apetite de investidores.
Fintech precisará fazer esclarecimentos
Para retomar os planos de IPO, a fintech precisará esclarecer os pontos levantados pelo INSS e obter autorização para voltar a operar normalmente com novos contratos de consignado. Até lá, o risco regulatório passa a ser um fator central na avaliação do negócio, especialmente em um momento de maior seletividade no mercado de capitais internacional.
Em comunicado, o Agibank afirmou que não comenta especulações de mercado e que qualquer decisão estratégica relevante será divulgada oportunamente.
O episódio reforça um ponto sensível para fintechs especializadas em crédito regulado: mudanças operacionais impostas por órgãos públicos podem afetar diretamente planos de crescimento, valuation e acesso ao mercado de capitais.
Perfil distinto no mercado financeiro
Diferentemente de bancos digitais como o Nubank, cujo público é majoritariamente jovem e urbano, o Agibank atende clientes com idade média acima de 40 anos, concentrados fora dos grandes centros e com renda mensal previsível, oriunda de salários ou benefícios previdenciários. Esse perfil sempre foi visto como uma vantagem competitiva, mas também aumenta a dependência de regras específicas do setor público.
No campo societário, a fintech conta com investidores relevantes. Em 2024, o fundo Lumina Capital, fundado pelo ex-Morgan Stanley Daniel Goldberg, liderou um aporte de R$ 400 milhões, passando a deter cerca de 4% do capital e garantindo assento no conselho da empresa. O Vinci Partners também figura entre os acionistas, após investimento realizado em 2020.
IPO sob escrutínio
O possível adiamento do IPO ocorre em um momento em que investidores globais estão mais atentos a governança, compliance e exposição regulatória, especialmente em fintechs de crédito. Para o Agibank, a resolução do impasse com o INSS será determinante não apenas para a retomada do crescimento operacional, mas também para sustentar a narrativa de longo prazo junto ao mercado.
O caso ilustra como, no setor financeiro, regulação e estratégia de capital caminham juntas e como decisões administrativas podem rapidamente alterar o cronograma de uma abertura de capital.