
O open banking do Reino Unido completou oito anos consolidado como infraestrutura central do sistema financeiro, deixando para trás o rótulo de experimento regulatório. Lançado oficialmente em janeiro de 2018, o modelo já soma mais de 16,5 milhões de conexões ativas de usuários, segundo dados divulgados pela Open Banking Limited.
O marco ocorre em um momento estratégico. Em carta recente ao primeiro-ministro britânico, a Financial Conduct Authority (FCA) classificou o open banking como uma iniciativa fundamental para impulsionar o crescimento econômico, com destaque para novos casos de uso em crédito para pequenas e médias empresas (PMEs).
Criado a partir da Retail Banking Market Investigation Order, conduzida pela Competition and Markets Authority (CMA), o open banking nasceu como uma resposta regulatória à concentração bancária. Oito anos depois, tornou-se parte estrutural da forma como consumidores e empresas movimentam dinheiro, acessam crédito e compartilham dados financeiros.
Pagamentos ganham protagonismo no Open Banking
Um dos avanços mais relevantes do modelo britânico está nos pagamentos de conta para conta, que vêm crescendo à medida que empresas e consumidores migram de cartões de crédito, mais caros, para transferências bancárias diretas.
Atualmente, o ecossistema reúne 145 provedores terceiros autorizados, que utilizam APIs padronizadas para oferecer serviços de iniciação de pagamentos, agregação de contas e análise de dados financeiros. Para o mercado, isso significa menor custo transacional, mais concorrência e novos modelos de negócio baseados em dados.
Esse movimento reforça uma mudança estrutural: o open banking deixou de ser apenas sobre acesso a dados e passou a ser também sobre fluxo de dinheiro, aproximando-se da infraestrutura de pagamentos.
Base para o open finance
Além do impacto direto no setor bancário, o open banking britânico se tornou a base técnica e regulatória do open finance. As normas, padrões e aprendizados acumulados ao longo dos últimos anos estão sendo reaproveitados para ampliar o compartilhamento de dados em áreas como pensões, investimentos, seguros, energia, telecomunicações e habitação.
Segundo Henk van Hulle, o desafio agora é garantir a sustentabilidade do modelo no longo prazo. “O Reino Unido criou algo verdadeiramente pioneiro em nível mundial. A prioridade agora é implementar estruturas duradouras para que essa vantagem seja protegida e continue crescendo”, afirmou.
Embora o modelo britânico seja referência histórica, o caso brasileiro chama atenção pela velocidade de adoção e escala. Quando o Open Finance do Brasil completou cinco anos, em agosto de 2025, o ecossistema já acumulava mais de 100 milhões de consentimentos ativos, cerca de 70 milhões de contas conectadas e uma média de 4 bilhões de chamadas de API por semana, segundo dados da Associação Open Finance Brasil.
“O Open Finance do Brasil é um sucesso. Isso é inegável e é uma referência para o mundo”, afirmou Ana Carla Abrão, em entrevista ao Let’s Money Podcast. “Nós começamos depois, mas hoje estamos muito mais à frente em praticamente todas as métricas.”
Segundo a executiva, a diferença de escala é frequentemente destacada em fóruns internacionais. “Eu tive a chance de visitar o open banking na Inglaterra e todos falavam a mesma coisa: como é que vocês conseguiram?”, relatou. “O Brasil se consolidou como o maior sistema de finanças abertas do planeta.”
Infraestrutura invisível, impacto real
Apesar de muitas vezes operar de forma invisível para o usuário final, o open banking britânico se firmou como infraestrutura essencial para inovação financeira, sustentando novos modelos de pagamento, crédito e serviços baseados em dados.
Oito anos depois, a experiência do Reino Unido mostra que open banking não é produto, é base estrutural — e que sua evolução para o open finance depende menos de tecnologia e mais de governança, escala e uso efetivo pelo mercado.