
Bom dia!
Nem toda virada do mercado vem com produto novo ou anúncio barulhento. Às vezes, ela aparece em decisões judiciais, pedidos de licença e lançamentos silenciosos longe do eixo tradicional.
Nesta edição, o Pix reaparece em um capítulo que ninguém queria escrever, fintechs mostram que crescer também é aceitar o peso da regulação, e o Banking as a Service brasileiro cruza fronteiras sem alarde.
Na Let’s Money de hoje:
- 🚔 O Pix nas páginas policiais: STJ mantém prisão em novo desdobramento do maior ataque hacker ao sistema, reforçando que crimes contra o Pix já são tratados como risco estrutural.
- 🏦 Quando a fintech vira banco: Avenue recebe autorização do BC para operar como banco de investimento e mostra que, depois do hype, a escala exige licença e governança.
- 🌍 O BaaS que saiu do Nordeste e chegou a Nova York: Faturepag lança conta digital em modelo Banking as a Service na NRF e sinaliza a internacionalização silenciosa das fintechs regionais.
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Quando o Pix vira manchete policial
Depois de meses de investigação, prisões, pedidos de extradição e perícias técnicas, o Pix voltou ao noticiário. A decisão do STJ de manter a prisão preventiva de um empresário investigado no maior ataque hacker já registrado contra o sistema é mais um capítulo de uma história que começou silenciosa, ganhou escala milionária e terminou exposta como risco sistêmico. O Pix não “entrou” nas páginas policiais agora, mas permanece nelas.
O ataque que desviou mais de R$ 800 milhões já havia acendido alertas no Banco Central, mobilizado a Polícia Federal e revelado fragilidades nas pontas do ecossistema, especialmente em empresas de tecnologia que conectam instituições menores à infraestrutura central. O que a decisão do STJ faz agora é cristalizar algo que o mercado já sabia: esse não é um caso de fraude comum, nem um desvio pontual. É crime organizado operando sobre uma infraestrutura crítica.
Quando o caso deixa de ser técnico e vira institucional
Ao rejeitar o habeas corpus e manter a prisão, o STJ evitou discutir o mérito da investigação, mas deixou claro o peso do contexto. Não se trata apenas de ausência de violência ou ameaça direta, como alegou a defesa, mas da complexidade do esquema, do volume financeiro envolvido e do risco de continuidade delitiva. Traduzindo: a Justiça passou a enxergar o ataque ao Pix como algo que ultrapassa o campo operacional.
Ao longo dos últimos meses, a PF apurou desvios, rastreou fluxos, pediu extradições e revelou como o ataque explorou falhas em fornecedores e integrações terceirizadas. Parte dos valores foi rapidamente convertida em criptoativos, numa tentativa clássica de dificultar rastreamento. O roteiro é conhecido, mas o palco nem tanto. O Pix virou trilho atrativo justamente por ser rápido, líquido e amplamente conectado.
O elo fraco nunca foi o Pix
O caso também ajuda a desmontar um equívoco recorrente. O ataque não comprometeu o núcleo do Pix, mas expôs vulnerabilidades na cadeia que orbita o sistema: prestadores de serviços, empresas de tecnologia, controles de acesso e governança. O Pix funcionou como infraestrutura; o crime operou nas bordas.
Esse detalhe é central para entender por que o Banco Central, paralelamente à investigação criminal, passou a endurecer regras de segurança cibernética, exigir testes de invasão, ampliar rastreabilidade e enquadrar fornecedores como parte relevante do risco sistêmico. O ataque não foi um bug, foi um teste de estresse involuntário, e caro.
O recado que fica
A manutenção da prisão não resolve o caso, mas envia um sinal claro ao mercado. Ataques ao Pix não serão tratados como incidentes digitais de baixa gravidade. À medida que o sistema se consolida como espinha dorsal dos pagamentos no país, crimes contra ele passam a ser tratados como ameaças estruturais.
O Pix cresceu rápido, ganhou escala e virou rotina. O crime percebeu. A Justiça também. E, a partir daqui, cada novo desdobramento desse caso serve menos para contar uma história policial e mais para lembrar uma realidade incômoda: quando uma infraestrutura se torna essencial demais para falhar, ela também se torna valiosa demais para não ser atacada.

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Quando a fintech vira banco

Virar banco não é sobre mudar o nome no cartão ou adicionar novos produtos no app. É sobre atravessar uma fronteira institucional. Ao autorizar a Avenue, fintech do Itaú, a operar como banco de investimento, o Banco Central formaliza esse rito de passagem: a empresa deixa de ser apenas uma interface para investimentos internacionais e passa a ocupar um lugar mais profundo, e mais exigente, dentro do sistema financeiro.
A licença amplia o escopo de atuação da companhia, especialmente em operações de câmbio com balanço próprio e no desenho de produtos financeiros cross-border. Na prática, a Avenue ganha autonomia para estruturar fluxos internacionais com menos intermediários, mais eficiência e maior controle regulatório. É a diferença entre operar sobre a infraestrutura de terceiros e começar a construir a própria.
Quando a inovação pede licença
O movimento também revela uma mudança de fase no ecossistema. Depois de anos em que fintechs cresceram apostando em experiência, velocidade e desintermediação, chega o momento em que escala exige algo menos glamouroso e mais decisivo: licença. Governança, capital regulatório, controles e responsabilidade prudencial deixam de ser custo e viram ativo estratégico.
No caso da Avenue, a autorização como banco de investimento reforça seu papel como braço de internacionalização financeira do Itaú para pessoas físicas. A empresa passa a disputar um espaço que vai além da intermediação de investimentos no exterior, conectando câmbio, funding e produtos estruturados para clientes com patrimônio distribuído entre diferentes países.
Não é coincidência que o discurso da companhia fale em “Diáspora Patrimonial”. O comportamento do investidor brasileiro mudou: renda, ativos e decisões financeiras já não cabem em uma única jurisdição. Para atender esse perfil, não basta tecnologia, é preciso estar dentro do sistema.
Licença como estratégia, não como burocracia
No mercado financeiro, licença define até onde uma empresa pode ir. Ao virar banco de investimento, a Avenue se aproxima de um território historicamente reservado a instituições tradicionais: operar câmbio com autonomia, estruturar produtos mais complexos e ganhar escala com previsibilidade regulatória.
O movimento também dialoga com um contexto mais amplo. Enquanto o Pix discute fronteiras, stablecoins entram no radar e o Brasil começa a exportar infraestrutura financeira, fintechs mais maduras deixam o discurso de disrupção pura e passam a disputar espaço institucional. Não é um abandono da inovação, mas sua formalização.
A autorização do Banco Central não encerra a trajetória da Avenue, ela inaugura a fase mais difícil e mais relevante. A de provar que uma fintech pode crescer, escalar e se internacionalizar sem abrir mão de governança. Quando a fintech vira banco, o jogo muda. E voltar ao estágio anterior deixa de ser opção.

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O BaaS que saiu do Nordeste e chegou a Nova York

A internacionalização da inovação financeira brasileira nem sempre nasce nos grandes centros, e nem sempre passa pelos nomes mais óbvios. Às vezes, ela começa no varejo regional e desembarca direto em Nova York. Foi esse o caminho trilhado pela Faturepag, fintech pernambucana que aproveitou a NRF 2026 Retail’s Big Show para lançar o Faturepay, sua nova conta digital estruturada em modelo de Banking as a Service, em parceria com a Aarin como banco custodiante. Não é só presença institucional: é produto, estratégia e tese exposta ao mercado global.
O lançamento marca uma mudança clara de posicionamento. Conhecida pela atuação em subadquirência, a Faturepag passa a usar a conta digital como eixo do relacionamento financeiro com o lojista. Ao integrar pagamentos, Pix, boleto, cartões e capital de giro em uma única estrutura, a fintech avança no território do embedded finance e tenta capturar algo mais durável do que volume transacional: recorrência, dados e centralidade financeira no dia a dia do varejo. O BaaS entra como habilitador dessa ambição, permitindo escalar a oferta sem assumir diretamente o peso regulatório de um banco pleno.
O fato de esse anúncio acontecer na NRF não é detalhe. O evento funciona como radar global de tendências do varejo, e a presença de uma fintech nordestina brasileira com uma solução bancária pronta reforça uma mudança silenciosa no setor. Fintechs que nasceram resolvendo pagamentos agora querem ser plataforma financeira para o comerciante, especialmente pequenos e médios varejistas, historicamente mal atendidos pelos bancões. Ao levar um modelo de conta digital em BaaS de Pernambuco a Nova York, a Faturepag sinaliza que a inovação brasileira não está apenas sendo exportada como conceito. Ela já começa a ser apresentada como infraestrutura.

Entrevista
Nos vemos na próxima edição!
Sempre às terças.
Abraços,
Equipe Let’s Money