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A CFO da fintech americana Brex, Erica Dorfman, ofereceu um olhar raro e profundo sobre a decisão estratégica por trás da aquisição da empresa pelo banco Capital One por US$ 5,15 bilhões, destacando não apenas os fatores numéricos da transação, mas também o contexto de mercado e as implicações para o futuro da companhia. A análise completa está disponível no portal Banking Dive, com base em entrevista conduzida por Adam Zaki. Leia mais no Banking Dive: Brex CFO Erica Dorfman’s take on the Capital One deal

A decisão estratégica por trás do acordo

Segundo Dorfman, a aquisição não fazia parte do plano original quando ela assumiu o cargo de CFO há cerca de seis meses. Brex vinha trilhando um caminho tradicional para empresas de tecnologia financeira — com foco em crescimento autônomo, captação de capital privado e até avaliação de um IPO (oferta pública inicial) — antes que a proposta de Capital One surgisse.

O que acelerou o acordo foi a conversa entre o CEO da Brex, Pedro Franceschi, e o fundador do Capital One, Richard Fairbank. Essa conexão não apenas abriu caminho para negociações, como também alinhou a visão estratégica de integração entre a plataforma digital da Brex e os recursos financeiros e de distribuição do banco consolidado.

Dorfman explicou que, mesmo com taxas de crescimento relevantes (entre 40% e 50% ao ano), integrar a infraestrutura e a capacidade de capital de um grande banco é um diferencial competitivo difícil de alcançar de forma independente no atual cenário de mercado.

Valuation e lógica de mercado

O valor da transação — US$ 5,15 bilhões — ficou bem abaixo da avaliação de mercado privado da Brex em 2022, que ultrapassava US$ 12 bilhões. No entanto, Dorfman destacou que comparar valuations privados com o contexto de uma aquisição completa não é adequado, uma vez que transações privadas envolvem apenas parcelas menores da empresa.

No entendimento da CFO, o conselho avaliou o negócio sob a ótica da economia de mercado público e da liquidez total para acionistas. Esse racional levou a liderança a concluir que a combinação com o Capital One oferecia uma oportunidade mais forte de executar os planos de crescimento da Brex em escala global.

Comunicação interna e próximos passos

Dorfman reconheceu os desafios de conduzir esse tipo de transação em um curto espaço de tempo — cerca de quatro semanas — e de manter o foco nas operações do dia a dia, sem gerar ruídos entre colaboradores. Ela pontuou que as equipes permaneceram engajadas enquanto a negociação avançava, e que o compromisso em manter a cultura e o quadro de funcionários intactos ajudou a sustentar a confiança interna.

Além disso, a CFO reforçou que a integração com um banco de grande porte trará acesso a capital e infraestrutura robustos, fatores essenciais para a expansão de produtos financeiros complexos. A expectativa é que a Brex continue a operar com relativa autonomia dentro da estrutura do Capital One, preservando sua identidade tech-first enquanto amplia sua penetração no mercado corporativo.

Um marco na consolidação do setor fintech

Esse acordo representa um movimento significativo na evolução das fintechs frente aos bancos tradicionais: em vez de competir exclusivamente por crescimento orgânico ou por oferta pública, muitas começam a considerar a integração com instituições financeiras estabelecidas como uma via estratégica para acelerar alcance, produtos e escalabilidade.

Se concretizado, o acordo não apenas redefinirá a trajetória da Brex em meio a um ambiente financeiro em transformação, como também poderá inspirar outros players do setor a repensar seus modelos de crescimento diante de um mercado mais consolidado e competitivo.

Gabriel Pereira

Fundador da Let's Money

Fundador da Let's Money que da voz a quem constrói o mercado financeiro no Brasil e no mundo.

Fundador da Let's Money que da voz a quem constrói o mercado financeiro no Brasil e no mundo.