A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) quer ter em operação, até o fim de 2026, a fase inicial de um sistema que usa inteligência artificial (IA) para vigiar o mercado de capitais. A ideia é juntar numa base única registros espalhados por várias instituições e usar algoritmos para apontar negociações suspeitas, segundo o presidente, Otto Lobo, em fala reportada pelo Valor Investe.
O plano foi apresentado na quinta-feira (8), na FGV, em São Paulo, num encontro da CVM para mostrar os avanços do GTT, o grupo que a autarquia montou para desenhar regras para ativos tokenizados. “A CVM não pode mais supervisionar o mercado como fazia antes. O mercado cresceu, ficou mais complexo e sofisticado”, disse Lobo, segundo o comunicado oficial do evento. Na mesma fala, ele pôs data na entrega: “vamos entregar até o final do ano um sistema de supervisão com utilização de IA, com apoio da ANCORD, ANBIMA e ABRASCA.”
CVM · agenda de supervisão e tokenização
A primeira fase da fiscalização com IA está prevista para o fim de 2026
Anúncio, etapa pendente e etapa sem prazo, segundo o presidente da CVM, Otto Lobo
Etapas tracejadas ainda não aconteceram. Fonte: Valor Investe; CVM. Arte: Let’s Money.
Como a primeira fase da fiscalização com IA deve funcionar
O ponto de partida é um data lake, um repositório central. Sobre ele, a CVM pretende testar ferramentas de IA já usadas por autoridades e operadores de mercado fora do Brasil. A autarquia espera que a estrutura rode 24 horas por dia, em todos os dias da semana, como complemento ao trabalho dos técnicos.
O ganho destacado por Lobo é de tempo. Para reconstituir uma operação suspeita, a fiscalização pode ter de pedir documentos a cada instituição, vaivém que pode durar meses ou anos, segundo ele. Com os registros integrados, a CVM espera enxergar antes três situações: negociações circulares envolvendo partes relacionadas; negócios fechados fora da bolsa em que não fica claro quem são os participantes; e indícios de distorção na formação de preços.
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Da punição depois do fato ao bloqueio antes dele
A etapa seguinte, ainda sem data, prevê o uso de DLT (tecnologia de registro distribuído, como a blockchain) para a CVM acompanhar as operações enquanto acontecem. Nesse desenho, debêntures e fundos de investimento tokenizados carregariam regras embutidas: teto de negociação, checagem de que o produto serve ao perfil de quem compra e rotinas contra lavagem de dinheiro. Para Lobo, a lógica muda: menos flagrar e punir depois, mais barrar certas operações antes que se completem.
Antes, no Token Summit, Lobo já tinha dito que a CVM mira IA na supervisão do mercado de capitais. O anúncio de agora acrescenta o desenho da primeira fase e o compromisso de pôr o sistema de pé até dezembro.
Segundo Lobo, a modernização exigirá gasto com infraestrutura e pessoal. Ele ligou uma supervisão mais eficaz à atração de capital de fora: “O que um investidor estrangeiro precisa ver é previsibilidade”, afirmou.
O que observar
A primeira pergunta é de dados. Um data lake de supervisão depende de intermediários, infraestruturas de mercado e autorreguladores entregarem registros completos e padronizados, e os anúncios não detalham quem fornece o quê. Vale acompanhar se a primeira fase cumpre o prazo.
A outra é de modelo. Ferramentas de IA feitas para outros mercados precisam ser calibradas ao brasileiro, e controles embutidos nos ativos tokenizados deslocam parte da vigilância para o momento da operação. Se esse desenho avançar, corretoras, distribuidoras e emissores de ativos digitais podem ter de embutir regras de conformidade no produto.