Num levantamento global da Cloudera com 1.270 líderes de TI, só 24% dos respondentes do setor de serviços financeiros cravaram a opção extremamente verdadeiro diante da afirmação de que alcançam a totalidade dos dados da própria organização sempre que precisam; 69% somando quem diz que isso é muito verdadeiro. Em telecom, 51%. A distância indica onde a corrida das instituições pela inteligência artificial (IA) ainda emperra: na base de informação.
A pesquisa, chamada The Data Readiness Index 2026, foi aplicada pela Researchscape entre 22 de janeiro e 3 de março de 2026, com executivos de companhias com mais de 1.000 funcionários nas Américas, na Europa, no Oriente Médio e na África e na Ásia-Pacífico. Os resultados foram ponderados pelo PIB dos países pesquisados, e a Cloudera não informou quantos respondentes são do setor financeiro, o que impede calcular a margem de erro do recorte. O recorte setorial saiu em comunicado de 22 de setembro e foi detalhado pelo Valor na sexta-feira (2).
Finanças x telecom: o que os líderes de TI dizem sobre seus dados
Indicador
Serviços financeiros
Telecomunicações
Sabe onde estão todos os dados (extremamente verdadeiro)
30%
54%
Diz acessar 100% dos dados a qualquer momento*
24%
51%
Todos ou quase todos os dados governados
61%
57%
Infraestrutura atrapalha iniciativas operacionais
38%
60%
* Em serviços financeiros, 24% é a resposta extremamente verdadeiro; a Cloudera não detalha o nível da escala do dado de telecom. Pesquisa The Data Readiness Index 2026, da Cloudera. Fontes: Valor e Cloudera
Perto do controle total, mas com ressalva
Em finanças, 30% marcaram extremamente verdadeiro para a afirmação de que sabem onde está cada dado da empresa; somados os que escolheram muito verdadeiro, o índice vai a 83%. A maioria se vê perto do controle completo, mas poucos o declaram sem ressalva.
Na governança, 61% disseram ter todos ou quase todos os dados totalmente governados, com normas claras de qualidade, acesso e uso. O patamar fica perto do de manufatura (58%) e atrás de saúde (66%). Quando a régua sobe para 100% da base governada, telecomunicações marca 33% e tecnologia, 26%; os demais setores, finanças incluído, ficaram em 20% ou menos.
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Retorno da IA esbarra no fluxo de trabalho
Entre os respondentes do setor financeiro, um quinto (20%) culpou a baixa integração das ferramentas à rotina das equipes pelo retorno aquém do previsto em projetos de IA e dados. Já 38% relataram que a performance da infraestrutura trava iniciativas operacionais. Em telecomunicações, essa reclamação chega a 60%, a maior entre os setores pesquisados.
Num estudo anterior, voltado a arquitetos e líderes de infraestrutura, a Cloudera apontou que 95% das empresas adiam projetos de IA diante de exigências de regulação, compliance ou governança.
O peso do legado nos bancos
Cesar Gomes, da Cloudera no Brasil, atribui parte da dificuldade à arquitetura dos bancos, que convivem com sistemas antigos espalhados por várias plataformas. “Principalmente os bancos, eles têm muita tecnologia legada e ainda usam muito ‘mainframe’. Então, eles têm muitos dados que estão em plataformas diferentes”, disse ao Valor.
“Acessar 100% dessa informação é crucial para que você aumente o retorno sobre o investimento com IA, porque o dado é a fundação para uma IA que vai alucinar menos, que vai ser mais assertiva nas respostas”, afirmou. Ele ressalva que abrir a base exige guardrails, limites que impedem um dado restrito de chegar a quem não tem permissão. Na avaliação dele, a IA, ao se espalhar pelas instituições, tende a aumentar o peso dos dados, sobretudo com o Open Finance.
A pergunta que fica é quanto do retorno abaixo do esperado em IA nas instituições financeiras vem de dado inacessível e quanto da integração à rotina. Vale acompanhar se a distância entre os 69% que se dizem perto do acesso total e os 24% que o afirmam sem ressalva encolhe à medida que projetos saem do piloto para a produção.
O segundo ponto é o controle de acesso: abrir mais dados aos modelos aumenta o risco de expor informação a quem não deveria vê-la. Bancos com núcleo em mainframe e fintechs nascidas na nuvem partem de lugares diferentes para resolver isso.