Ir para o conteúdo

Finanças verdesInternacional · China

Estudo liga fintech a desenvolvimento verde na Ásia e África

Análise de 148 países de 2004 a 2023 associa fintech a desenvolvimento verde na Ásia e na África; no bloco de Europa e América Latina, não se confirma.

por

· 3 min

Shutterstock

Em estudo publicado neste ano, pesquisadores da Huazhong University of Science and Technology, de Wuhan, cruzaram duas décadas de dados de 148 países ligados à Iniciativa Cinturão e Rota e acharam associação positiva entre um índice de tecnologia financeira e o desenvolvimento verde na Ásia e na África. No bloco que reúne Europa, América Latina e Caribe, essa relação direta não se confirmou.

Fintech e desenvolvimento verde, por grupo de países

Grupo Índice de fintech Efeito Cinturão e Rota Fintech com Cinturão e Rota
Painel completo (148 países) 0,014 0,020 0,014
Ásia (49) 0,034 0,061 -0,044
África (49) 0,041 0,041 -0,045
Europa, América Latina e Caribe (50) sem efeito positivo 0,048 0,007

Coeficientes dos modelos principais do estudo de Iftikhar, Guang, Ullah e Qian (2026). Fonte: Financial Innovation

O trabalho saiu na revista acadêmica Financial Innovation, assinado por Huma Iftikhar, Luo Guang, Atta Ullah e Ningyu Qian, com participação do Wenhua College, também de Wuhan. A janela vai de 2004 a 2023, e a Iniciativa Cinturão e Rota, programa de infraestrutura e investimento que a China lançou em 2013, entra no modelo como um marcador de antes e depois daquele ano.

O que o índice de fintech mede de fato

Apesar do rótulo de tecnologia financeira disruptiva, o índice dos autores é feito de 16 indicadores de acesso e infraestrutura: caixas eletrônicos por 100 mil adultos, contas de mobile money por mil adultos, agências de microfinanças e de cooperativas de crédito, índice de serviços online da ONU, infraestrutura de telecomunicações e linhas de celular. Mede, portanto, a capilaridade dos serviços financeiros e digitais de cada país.

Do outro lado, o desenvolvimento verde é um índice com base no Banco Mundial que soma poupança líquida ajustada, gasto com saúde e com pesquisa e desenvolvimento, e desconta danos ambientais. A estimação usa GMM de sistema em dois estágios, com regressão bayesiana como teste de robustez. São associações estatísticas, sem prova de causa.

Onde a combinação inverte o sinal

Quando o modelo cruza o índice de fintech com o período da Cinturão e Rota, o resultado fica positivo no painel completo e no grupo europeu, mas negativo na Ásia e na África. Na leitura dos autores, essa combinação pode priorizar crescimento econômico rápido nas duas regiões, com risco para os resultados ambientais. Eles afirmam haver “a necessidade de alinhar a tecnologia financeira disruptiva a padrões verdes” (em tradução livre).

O grupo chamado de Europa inclui Argentina, Chile, Peru e Uruguai; o Brasil não aparece na lista de 148 países. Nesse bloco, o texto do artigo trata o efeito direto da fintech como não significativo, enquanto a tabela de resultados registra coeficiente negativo, de -0,015.

Entre as variáveis de controle, depósitos em cooperativas de crédito se associam a desenvolvimento verde no painel completo. É um segmento que também mexe com crédito sustentável por aqui: o Sicoob, por exemplo, elevou a fatia sustentável do crédito liberado. Como receita, os pesquisadores sugerem impostos ambientais e instrumentos como empréstimos atrelados a metas de sustentabilidade, plataformas de negociação de carbono e títulos verdes.

Títulos com rótulo ambiental já circulam entre emissores brasileiros, como o Nature Bond emitido pelo Banco do Brasil.

O que observar

Os próprios autores reconhecem que juntar 148 economias pode esconder diferenças de renda e sugerem repetir a análise por faixa, de baixa a alta renda. Esse recorte pode dizer mais do que a divisão por continente, sobretudo num grupo que mistura países da União Europeia com economias do Caribe.

A outra pergunta é de política pública e de mercado: se a expansão de contas digitais, agências e celulares acelera atividade econômica sem filtro ambiental, quem financia passa a ter papel de triagem. Vale acompanhar se bancos de desenvolvimento, cooperativas de crédito e emissores de títulos temáticos nesses países vão amarrar critérios ambientais ao crédito que a digitalização ajuda a distribuir.

Fontes: Financial Innovation • Let’s Money: Sicoob e crédito sustentável • Let’s Money: Nature Bond do BB

Compartilhar essa notícia

Let's News

Entenda o dinheiro antes do mercado.

Ao assinar, você concorda com a política de privacidade.

Sem spam. Cancele quando quiser.

Mais notíciasInternacional
Ver a editoria →

Mais artigos de Internacional →

Let's News

Ao assinar, você concorda com a política de privacidade.

Sem spam. Cancele quando quiser.