A Circle abriu a clientes institucionais um caminho para levantar liquidez em USDC sem precisar vender suas reservas de Bitcoin. Pela nova operação, o cliente elegível do Circle Mint trava o BTC como garantia e recebe a stablecoin emprestada em mercados de crédito on-chain operados por terceiros.
Como grandes players estão emprestando contra cripto
Provedor
Desenho da garantia
Circle
BTC vira o token cirBTC e serve de colateral a protocolos de terceiros
Anchorage Digital e Kamino
Solana em staking mantido no Anchorage Digital Bank
Lombard e Bitwise
Bitcoin sob custódia, sem envelopar nem fazer ponte entre redes
BitGo
Modelo por portfólio, com vários ativos servindo de garantia
Movimentos recentes de crédito institucional lastreado em cripto. Fonte: Cointelegraph Brasil
Como o Bitcoin vira garantia dentro da conta
O serviço recebeu o nome de Digital Asset-Backed Borrowing. Ao depositar Bitcoin, o cliente emite o cirBTC, versão envelopada do ativo criada pela própria emissora, e usa esse token como colateral em protocolos compatíveis das redes Ethereum e Arc. O primeiro protocolo a aceitar a garantia é a Morpho, com a Circle sinalizando a entrada futura de Aave e de outros nomes.
Segundo a Circle, “o USDC tomado em empréstimo é depositado diretamente no saldo Circle Mint do cliente”. Quem estabelece o custo da operação, o colateral necessário e o ponto de liquidação é o mercado de crédito externo, não a emissora. Cada posição opera supercolateralizada, com o ativo dado em garantia preso a uma carteira sob controle do cliente e direcionado a protocolos DeFi externos, sem repasse direto de recursos pela Circle. Ficaram de fora do lançamento os clientes sediados em Nova York.
O cirBTC começou a operar na Arc no início desta semana, a mesma blockchain de camada 1 que a Circle colocou no ar dias antes, voltada a pagamentos em stablecoin e a operações de mercado financeiro. O token já tinha estreado na rede Ethereum no mês de junho, com lastro de um Bitcoin em custódia para cada unidade emitida, guardado pela Circle National Trust.
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A corrida por crédito institucional em cripto
A novidade se encaixa numa corrida do setor por levar grandes investidores ao crédito cripto sem tirar o colateral de estruturas de custódia reconhecidas. Fevereiro marcou a união entre a Anchorage Digital e a Kamino para deixar instituições tomarem crédito contra posições de Solana em staking custodiadas no Anchorage Digital Bank.
O primeiro desenho pensado sob medida para o Bitcoin surgiu no mês seguinte, março. Ali a Lombard se aliou à Bitwise para montar uma estrutura de crédito que deixa o BTC parado em custódia, sem convertê-lo em token nem movê-lo entre redes, com a Morpho na camada de empréstimo. É a rota inversa à da Circle, que embrulha o Bitcoin recebido no cirBTC antes de aceitá-lo como colateral. No mesmo período, a BitGo ampliou seu braço institucional com uma plataforma de financiamento na qual uma cesta de ativos pode responder pela garantia, dispensando um depósito dedicado a cada operação. A aproximação de instituições ao ecossistema já vinha de outras frentes, como a de bancos globais que passaram a emitir e resgatar a stablecoin para clientes institucionais e a de plataformas que abriram empréstimos em cripto ao público em outros mercados.
O que observar
O ponto que merece acompanhamento é onde fica o risco quando a emissora não empresta o próprio dinheiro. Ao empurrar as taxas, os requisitos de garantia e os gatilhos de liquidação para mercados de crédito on-chain de terceiros, o desenho transfere a decisão de risco para os protocolos externos, enquanto o custodiante fica com a guarda do colateral. Vale observar como os investidores institucionais vão precificar essa separação entre quem custodia, quem emite a stablecoin e quem define as regras do empréstimo.
A pergunta seguinte é de padrão. Com desenhos que ora envelopam o ativo, ora o mantêm intocado em custódia, ora aceitam uma cesta de garantias, o mercado ainda não convergiu para um formato único de crédito lastreado em cripto. O teste será quais desses modelos ganham escala com tesourarias e gestoras que exigem custódia qualificada antes de imobilizar reservas.