Durante anos, Thiago Rodrigues não recomendava a cobertura de vendaval para quem contratava seguro residencial ou empresarial no Rio de Janeiro. Para abrir um sinistro desse tipo, o vento precisa passar de 50 a 55 quilômetros por hora, e a cidade não tinha esse histórico. “Hoje eu já incluo a cobertura”, conta o especialista de Produtos e Serviços da Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos Empregados de Furnas (Cecremef), filiada à Central Sicoob UniMais Rio.
A mudança na recomendação tem explicação. Em 29 de julho de 2026, uma rajada de 105 km/h no Aeroporto do Galeão se tornou um dos três piores vendavais da cidade. No início de setembro, estações do Alerta Rio registraram rajadas de até 68 km/h em Copacabana e de 60,8 km/h na Marambaia durante a passagem de uma frente fria.
Clima e seguros em números
Indicador
Dado
Rajada no Aeroporto do Galeão (29/07/2026)
105 km/h
Chance de El Niño muito forte na primavera e no verão brasileiros (NOAA)
mais de 90%
Crescimento do seguro residencial no 1º tri de 2026 ante 1º tri de 2025 (Susep)
10,5%
Prêmios do seguro residencial entre janeiro e março de 2026 (Susep)
R$ 1,73 bilhão
Dados citados pela Sicoob UniMais Rio. Fonte: Sicoob
El Niño muito forte no radar
No início de setembro, a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da ONU, avisou que o El Niño deve atingir intensidade muito forte e chegar ao pico no fim de 2026, com probabilidade próxima de 100% de se estender até fevereiro de 2027. O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que o fenômeno “adiciona combustível a um planeta que já está em chamas”.
Nos Estados Unidos, a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), agência do governo americano, calcula mais de 90% de chance de um El Niño muito forte na primavera e no verão brasileiros, com 75% de probabilidade de ser o mais intenso desde 1950 no trimestre de outubro a dezembro.
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Mais consultas e prêmios em alta
Rodrigues já percebe o reflexo no segmento. Em 2025, nenhum gerente o procurou para tirar dúvidas sobre coberturas ligadas ao clima. Nos últimos meses, foram cerca de dez consultas apenas em seus atendimentos, todas motivadas por cooperados preocupados. A maior demanda vem de Angra dos Reis, região atendida pela cooperativa e marcada por deslizamentos.
Para o especialista, o brasileiro está mais disposto a ouvir sobre o assunto, sobretudo depois da pandemia. “Hoje o brasileiro pesquisa mais e ouve mais. Antigamente não ouvia”, destaca.
Campanhas e o que a apólice cobre
Em setembro, a Central Sicoob UniMais Rio concentrou duas frentes de seguros: o Acelera Seguros, campanha nacional de seguros gerais coordenada pelo Centro Cooperativo Sicoob, e o Dia S, em 25 de setembro, dedicado ao seguro de vida.
Segundo Rodrigues, eventos climáticos não são atos dolosos do segurado e, por isso, normalmente não há restrições. Quem estaciona em local permitido e é surpreendido pela enxurrada está coberto; quem vê a rua alagada e decide atravessar assume o risco. “A partir do momento que você se coloca nesse risco, perde o direito à cobertura.” No residencial, se a água danifica móveis sem comprometer a estrutura, a cobertura básica pode não garantir o ressarcimento; para isso existe a cobertura adicional de alagamento.
O que observar
O tema interessa a quem tem seguro residencial ou empresarial em áreas expostas a vento e chuva forte, e a cooperativas e corretoras. Vale acompanhar se a projeção de El Niño muito forte se confirma entre outubro e dezembro, como os próximos dados da Susep refletem a procura por apólices e se coberturas adicionais, como vendaval e alagamento, ganham espaço nas contratações.