Viswas Raghavan estava a um fim de semana de ser dispensado do JPMorgan quando, em fevereiro de 2024, negociou um pacote de US$ 52 milhões com o Citi. Reportagem do Financial Times, traduzida pelo Valor, revela que a saída veio após anos de denúncias internas de comportamento abusivo e duas revisões formais de conduta pela cúpula do banco.
O fim de semana que definiu a contratação
| Momento |
Evento |
| Sexta-feira |
Daniel Pinto informa Raghavan: sem futuro de longo prazo no JP Morgan |
| Fim de semana |
Raghavan negocia diretamente com o Citi por conta própria |
| Domingo |
Raghavan comunica ao JP Morgan que tem novo emprego |
| Segunda-feira |
Citi anuncia contratação de Raghavan com pacote de US$ 52 mi |
Cronologia de fevereiro de 2024. Fonte: Valor Econômico / Financial Times
Do aviso de sexta-feira ao anúncio de segunda
Jennifer Piepszak e Doug Rohrbaugh, co-CEOs do banco de investimento do J.P. Morgan, examinaram a trajetória de Raghavan e concluíram que sua posição era insustentável. A conclusão foi levada a Jamie Dimon e Daniel Pinto, e este último notificou Raghavan na sexta-feira de que não havia futuro de longo prazo para ele na instituição. O banco planejava anunciar nova liderança na segunda-feira sem um cargo para o executivo.
Raghavan se antecipou. Informou ao J.P. Morgan no domingo que havia conseguido emprego no Citi e, na manhã de segunda, o banco anunciou a contratação ao mercado. A movida partiu do próprio executivo: o Citi havia contratado a consultoria Egon Zehnder para uma busca formal por um novo chefe da área bancária, e Raghavan não estava na lista. Ele chegou ao banco por conta própria, por intermédio de seu banqueiro em Londres, David Livingstone.
Resultados no Citi e dúvidas que persistem
No Citi, Jane Fraser vinha conduzindo uma reestruturação ampla do grupo, que incluiu desde a venda de ativos como o Banamex até uma renovação da liderança em diferentes divisões. Raghavan foi incumbido de revitalizar a divisão bancária, que há muito operava abaixo do potencial. O resultado até agora é positivo: ele atraiu banqueiros do J.P. Morgan, como Achintya Mangla para financiamento e Amit Nayyar e Pankaj Goel para o banco de tecnologia, além do veterano do Goldman Sachs David Friedland.
O Citigroup registrou resultados de destaque no banco de investimento no quarto trimestre de 2025, superiores aos do J.P. Morgan, e as ações do banco operam perto dos maiores níveis desde a crise financeira de 2008. No primeiro trimestre de 2026, porém, os ganhos foram mais modestos em relação a pares.
Questionamentos sobre comportamento persistem. “Ele moderava e depois voltava à mesma coisa. Esse é o comportamento dele”, disse um ex-colega ao Financial Times. Um banqueiro veterano descreveu Raghavan como “um animal diferente do que as pessoas do Citi estavam acostumadas… [ele] colocará muita pressão no sistema”. Em nota ao FT, o banco afirmou que “o processo pelo qual Vis se juntou ao Citi foi caracterizado de forma equivocada” pela reportagem, e que a contratação envolveu due diligence direta da liderança sênior e do conselho.
O que observar
O caso levanta a questão de como grandes instituições financeiras equilibram performance comercial e padrões de conduta na seleção de executivos sêniores. Revisões formais de comportamento, com histórico documentado de redução de remuneração por conduta, raramente são impeditivas quando acompanhadas de resultados relevantes de captação e geração de receita.
Para conselhos e áreas de recursos humanos em bancos de investimento de grande porte, a questão operacional é se os processos de due diligence em contratações externas conseguem funcionar de forma independente das pressões competitivas por talentos de alto desempenho.
Vale acompanhar se o banco sustenta os ganhos em banco de investimento no segundo semestre de 2026 e se o arrefecimento do primeiro trimestre é variação pontual ou tendência. A continuidade de resultados consistentes é o principal argumento que sustenta a posição de qualquer executivo sênior diante de questionamentos sobre conduta.
Fontes: Valor Econômico / Financial Times