Eduardo Chedid, CEO do PicPay na Money20/20 2026 – Foto: Tiago Pinheiro, PicPay
O custo unitário de cada token de inteligência artificial no PicPay está 98% abaixo do que era dois anos atrás, e 94% dos 4.500 funcionários já usam o Nitro, a ferramenta interna de IA da empresa. Os números são de Eduardo Chedid, CEO do PicPay, que falou em entrevista exclusiva ao Let’s Money no Money20/20 USA, em 20 de outubro.
A vinda ao evento, disse ele, continua a história da abertura de capital: “A gente fez o IPO agora em janeiro [de 2026], aqui nos Estados Unidos, e 90% dos nossos investidores são americanos.” O PicPay estreou na Nasdaq em 29 de janeiro.
Plugins abertos, com a autenticação no app
Nos EUA, grandes bancos tomaram outro caminho. Em 13 de outubro, na teleconferência de resultados do terceiro trimestre, Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, disse que o banco não vai “permitir que qualquer agente de fora entre na empresa, porque isso é arriscado demais para os clientes e para o JPMorgan” (em tradução livre), segundo a Fortune. O Citi afirma não permitir que agentes ou assistentes de IA de terceiros façam login na conta de um cliente, de acordo com a Retail Banker International. Os dois seguem abertos ao compartilhamento de dados por provedores de open banking autorizados.
Na entrevista, Chedid citou esse movimento: “A gente lançou os dois primeiros plugins da América Latina, ou seja, a gente está indo numa direção totalmente oposta.” O PicPay leva conta e saldo para dentro do ChatGPT desde agosto de 2026 e integrou o Claude em setembro. Por ora, só para consulta: segundo o CEO, os laboratórios que desenvolvem os modelos ainda não estão prontos para transações. A lógica é a do Pix pelo WhatsApp: a conversa corre fora, a autenticação fica no app. “Usando a interface que for, mas mantendo a parte de segurança no nosso controle”, resumiu.
A abertura tem preço. Num assistente de terceiros, a empresa controla menos a oferta de outros produtos, a venda cruzada, que para Chedid “hoje é a maior alavanca de impacto no PicPay”. Com uma base acima de 70 milhões de clientes, ele aposta em contato mais frequente. “A gente acredita que se a gente não fizer, alguém vai dar um jeito de fazer. Então, eu prefiro sempre que a gente controle a inovação.”
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Três anos de IA no atendimento
O ChatGPT chegou ao público em novembro de 2022; em março de 2023, segundo o CEO, um agente de IA do PicPay já falava com clientes. No terceiro trimestre de 2023, todo o primeiro nível do atendimento passou para a máquina, quando o padrão era usar IA só como copiloto, por medo de alucinação. A réplica dele: atendente humano também erra.
Antes, o agente rodou seis meses em espelho com o atendimento humano, e a troca só veio quando o NPS da IA passou à frente. No painel com Candelaria Villagra, da Bind, em 19 de outubro, Chedid deu o resultado: 45% mais pontos de NPS, a 3% do custo anterior.
Em 2024 veio o Pix pelo WhatsApp, em parceria com a Meta: o cliente manda áudio, texto ou foto de uma conta, e confirma com biometria facial no app.
PicPay · IA no atendimento ao cliente
Do primeiro agente com o cliente, em 2023, aos plugins de 2026
Marcos citados por Eduardo Chedid, CEO do PicPay
Open Finance que manda dinheiro para o concorrente
No mesmo painel, Chedid mostrou a Conta das Contas, em que o cliente vê e movimenta saldos, cartões e investimentos de outras instituições sem sair do app. Com IA, ela também dispara alertas. Ele contou que a esposa entrou no cheque especial na conta de outro banco e recebeu do PicPay um aviso sobre os juros altos, já com uma transferência do saldo no PicPay para a outra conta pronta para aprovação. “Pode parecer contraintuitivo, porque é o PicPay dizendo ao cliente para tirar dinheiro da nossa conta e levar para outro banco, que compete com a gente”, disse (em tradução livre). A aposta, nas palavras dele, é que o cliente retribua “com lealdade”.
Um assistente que resolve vários pedidos de uma vez
A segunda versão do PicPay.AI, o assistente de IA da empresa, já chegou a cerca de 200 mil clientes e segue em liberação, disse Chedid no almoço-painel do PicPay, também em 19 de outubro. Ela roda no WhatsApp, no app e nos plugins, e combina o contexto interno (produtos, contas de outros bancos via Open Finance, histórico do cliente) com o externo, como a cotação do câmbio num pedido para juntar o equivalente a US$ 2 mil em dois meses para uma viagem.
Na entrevista, o CEO apontou o obstáculo do lado do usuário: “Um dos grandes desafios é a gente ensinar o cliente o que dá para fazer.”
Cinco agentes para pequenas empresas
Para PMEs, o PicPay monta uma família que, de início, terá cinco agentes de IA, contou Chedid no painel com a Bind. O de marketing conecta pequenos negócios aos usuários do app por geolocalização. Em cerca de cinco dias após o lançamento, foram quase 2 mil campanhas, que alcançaram cerca de 1,7 milhão de clientes, segundo ele. O de vendas monta o catálogo com fotos dos produtos e vende pelo Instagram ou pelo WhatsApp. O PicPay lançou o vendedor com IA no WhatsApp e a loja online em 27 de outubro.
O terceiro, financeiro, cuida de contas a pagar e a receber e foi antecipado na entrevista: “A gente já lançou o financeiro. Não está ainda divulgado, mas já está na mão dos clientes.”
Dentro de casa, 94% no Nitro
Os números internos vieram na entrevista. O Nitro, plataforma de inteligência artificial desenvolvida pelo PicPay e adaptada aos seus processos internos, nunca teve lançamento formal: a empresa, que já tinha muitos engenheiros utilizando IA no dia a dia, abriu a ferramenta para testes e, enquanto preparava cartilha e treinamento, 1.700 pessoas já a usavam por conta própria. Hoje, o Nitro é usado por 94% do quadro. Segundo o CEO, hoje duas ou três pessoas conseguem criar um produto complexo em poucos dias. A tecnologia também é distribuída: “Se você me perguntar hoje quem é o CTO do PicPay, vou te falar, a gente tem 16.” Cada unidade de negócio, autônoma, tem o seu.
Na engenharia, 100% dos desenvolvedores programam com IA, e o volume médio de código por desenvolvedor subiu 60%, chegando a 100% entre os mais avançados. O número de pessoas que programam cresceu 30%, porque profissionais de produto agora tocam a entrega do começo ao fim. Somados, os dois efeitos passam de 100% de produtividade, conta que ele repetiu no almoço-painel. O próprio CEO programou: numa manhã, desenvolveu uma funcionalidade que o incomodava.
PicPay · IA dentro de casa
Token 98% mais barato, e a IA já está na mão de quase todo o time
Números de custo e produtividade informados pelo CEO
A queda de 98% no custo unitário veio enquanto o consumo de tokens disparava. No almoço-painel, Chedid falou em custo reduzido, nos últimos anos, a 2% do que era, e avisou que a IA exige gestão, “senão o consumo de tokens vai às alturas. E, se você não administrar isso, os ganhos de eficiência podem não ser suficientes para pagar a conta” (em tradução livre).
São três frentes. Quem escolhe o modelo de cada tarefa é o PicPay, não o funcionário. O cache sobe o contexto uma vez, e cada conversa envia só o que é novo. E um tradutor de prompt, outro modelo, reescreve o pedido do funcionário antes de ele chegar ao modelo principal, sem que o usuário perceba. Na entrevista, ele acrescentou que tudo roda sobre uma camada própria de orquestração dos modelos.
Cada contrato de software em renovação também é reavaliado: construir em casa ou manter o fornecedor. “Não temos apego a nenhuma dessas opções. Mas avaliamos cada contrato em revisão”, disse Chedid no almoço (em tradução livre).
Requalificação, aquisições e o fim do app
Com a natureza do trabalho mudando, o CEO prevê requalificação e camadas inteiras de tarefas que deixarão de existir. “E eu diria que nenhum de nós está realmente preparado para isso”, disse no mesmo almoço (em tradução livre).
Na entrevista, ele tratou as aquisições como atalho para ganhar capacidade. O GuiaBolso trouxe Open Finance; para entrar no consignado público, o PicPay comprou uma operação que já tinha esteira digital; e, em agosto de 2026, fechou a compra da seguradora Kovr, agora Kev Seguros. Chedid também oferece o PicPay como porta de entrada no Brasil para empresas estrangeiras: “Se é um produto bacana que a gente não tem, a gente também está super aberto.”
No painel com a Bind, ele disse que o internet banking e o aplicativo, como são hoje, não devem durar. A relação com o cliente vai ficar fluida e conversacional: “Vai ser quase como ter o seu próprio gerente de agência” (em tradução livre).
O que observar
A primeira questão é quando os assistentes de IA de terceiros vão passar da consulta à transação, e quem responde se um agente de fora mover dinheiro errado.
A segunda é de custo: preço menor por token não garante conta menor quando o consumo cresce mais rápido. A terceira é de gente: se equipes menores e profissionais de produto programando virarem padrão no setor, a requalificação deixa de ser opcional.