O capital de giro das empresas brasileiras está migrando dos bancos tradicionais para o mercado de capitais. Dados do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) já acumulam R$ 144 bilhões em recebíveis comerciais, equivalente a 84% do estoque de desconto de duplicatas mantido pelos bancos, que permanece estagnado em R$ 172 bilhões há quatro anos. O levantamento foi divulgado pela Vertrau, infratech que fornece tecnologia para FIDCs e operações de crédito estruturado.
Crédito corporativo nos fundos cresce 418% em um ano
A mudança reflete uma reconfiguração no financiamento corporativo brasileiro. Enquanto o saldo bancário de desconto de duplicatas recuou 2,7% nos últimos 12 meses, os FIDCs registraram crescimento de 1,8% no segmento comercial. O contraste se acentua na carteira classificada como crédito corporativo: nos fundos, o volume saltou de R$ 6,5 bilhões para R$ 33,7 bilhões em um ano, expansão de 418%.
“Os bancos estão operando com o mesmo volume de capital, mas girando mais rápido. O prazo médio das operações caiu de 2,8 para 2 meses. Isso não atende empresas que precisam de capital de giro com prazo mais longo para sustentar ciclos operacionais”, afirma Walter Fritzke, fundador da Vertrau.
Bancos restringem o apetite, não o preço
Para Fritzke, a mudança não é motivada por preço, já que a taxa média do desconto bancário caiu de 20,2% para 18,6% ao ano, mas por restrição de apetite. A inadimplência das empresas no sistema bancário subiu de 2,9% para 3,4% e, especificamente nas operações de duplicatas, de 0,86% para 1,01%. “O risco ficou mais caro no balanço dos bancos. Os FIDCs, por sua natureza, distribuem esse risco entre investidores e conseguem precificar de forma granular, cadeia por cadeia, sacado por sacado”, explica.
Bancos cobram menos, mas emprestam por menos tempo
| Indicador |
Antes |
Agora |
| Prazo médio das operações bancárias |
2,8 meses |
2 meses |
| Taxa média do desconto bancário |
20,2% ao ano |
18,6% ao ano |
| Inadimplência das empresas nos bancos |
2,9% |
3,4% |
| Inadimplência nas operações de duplicatas |
0,86% |
1,01% |
Fonte: Vertrau, com dados do Banco Central e da CVM (27/10/2026)
1.122 novos FIDCs em 12 meses
A consolidação dos FIDCs como alternativa ao crédito bancário foi impulsionada por avanços regulatórios e tecnológicos. O registro de recebíveis, a duplicata escritural, a verificação automatizada de lastro e plataformas de gestão de carteira reduziram significativamente o custo de estruturar e operar fundos. Como resultado, surgiram 1.122 novos FIDCs em 12 meses, média de 94 por mês.
O patrimônio total dos FIDCs ultrapassou R$ 1 trilhão em junho de 2026, consolidando o setor como um dos que mais crescem no sistema financeiro brasileiro. “A duplicata é o crédito de melhor lastro. Com tecnologia para registrar, verificar e gerir esses ativos de forma automatizada, o mercado de capitais passa a operar com a mesma eficiência que antes era exclusiva dos bancos, mas com mais flexibilidade e capacidade de distribuição de risco”, afirma Fritzke.
Varejo vende mais e crédito de giro encolhe
O movimento ocorre em um cenário de expansão da atividade econômica. As vendas nominais do varejo subiram 5,2% em 12 meses, indicando maior necessidade de capital de giro. No entanto, o crédito bancário destinado a esse fim encolheu 2,7% no mesmo período.
“As empresas continuam vendendo, gerando recebíveis, mas os bancos não estão expandindo o volume de crédito. O mercado de capitais está preenchendo esse espaço”, diz Fritzke. Ele ressalta que a mudança é gradual, não disruptiva, e que os FIDCs não substituem os bancos, mas complementam o sistema financeiro.
Fundada em 2024 e com sede em Blumenau (SC), a Vertrau conecta empresas da economia real ao mercado de capitais pela plataforma proprietária VeHub e projeta crescimento de 350% para 2026. Em abril, a empresa já tinha avaliado o setor: Vertrau projeta 400% em mercado de FIDCs de R$ 741 bi.
O que observar
O dado interessa a empresas que dependem de capital de giro e a investidores de fundos de crédito. Vale acompanhar se o saldo bancário de desconto de duplicatas segue parado enquanto a carteira dos FIDCs cresce, e como evolui a inadimplência nas duplicatas.
Fontes: Vertrau Tecnologia • Let’s Money: Vertrau projeta 400% em mercado de FIDCs de R$ 741 bi • Let’s Money: BC estreia duplicata escritural mirando R$ 11 tri